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Sumário


 

 

Em torno das zonas húmidas estão concentrados cerca de 20 milhões de pessoas, constituindo cerca de 52% da população da bacia, muitas das quais dependentes de poços escavados à mão para o seu abastecimento de água potável.

 

 

O valor ecológico das zonas húmidas da Bacia do Zambeze foi estimado em US$ 15.000 por hectare, por ano. As zonas de mangal e estuário no delta valem entre US$ 10.000 a US$ 100.000 por quilómetro quadrado, por ano.

 

 

Existem indícios de que a retenção de água em Cahora Bassa reduziu substancialmente a área de zonas húmidas no Delta do Zambeze, afectando a produtividade destas áreas em Moçambique e mesmo a captura de camarão no mar.
Estado do Ambiente na
Bacia do Zambeze
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GESTÃO DE ZONAS HÚMIDAS

A disponibilidade de água na Bacia do Zambeze está intimamente ligada aos seus 66.000 quilómetros quadrados de zonas húmidas ou águas de superfície. Estes planícies de inundação, lagos e albufeiras, proporcionam enormes reservas, contendo cerca de 100.000 milhões de metros cúbicos de água por ano, e o volume total de água disponível, excluindo as perdas líquidas, é de cerca de 110.000 milhões de metros cúbicos por ano.

Os habitats, a produtividade e a biodiversidade das zonas húmidas, bem como os processos ecológicos, são dependentes da disponibilidade de água. Foi estimado que a quantidade mínima de água para mantêr as zonas húmidas é de 3.840 metros cúbicos por segundo, um número baseado na evapo-transpiração média dessas zonas.

Benefícios e serviços proporcionados pelas zonas húmidas

A água e os recursos aquáticos da Bacia do Zambeze proporcionam numerosos benefícios aos estados ripícolas no toca ao desenvolvimento social e económico. A sua gestão de recursos é importante para sustentar os diversos sectores da economia que são dependentes dos recursos aquáticos e das zonas húmidas. Em torno das zonas húmidas estão concentrados cerca de 20 milhões de pessoas, constituindo cerca de 52% da população da bacia, muitas das quais dependentes de poços escavados à mão para o seu abastecimento de água potável.

Alguns dos benefícios e serviços providenciados pelos recursos aquáticos e zonas húmidas da bacia são, embora não limitados a estes, energia, regularização dos cursos, produtos vegetais e animais, conservação, turismo e recreação.

Energia

O intenso escoamento e o desnível de 1.000 metros desde a sua nascente até ao mar, tornam o Rio Zambeze muito adequado para a produção de energia hidroeléctrica. Isto também se aplica a alguns dos seus afluentes. Actualmente, na Bacia do Zambeze, 15 estações existentes geram 32.800 GWh por ano. Contudo, os baixos níveis da água determinados pelas frequentes secas ameaçam a suficiente produção de energia na bacia. Os níveis de produção podem chegar a decair 12,2%, dependendo da severidade e duração da seca.

Regularização do curso

As zonas húmidas regularizam o curso dos rios e ate- nuam as cheias. As planícies de inundação armazenam água durante as estações das chuvas, libertando-a lentamente durante os períodos de seca. Isto ajuda a mantêr o caudal dos rios permanentes, como o Zambeze e os seus afluentes. Esta função das zonas húmidas depende de alguns parâmetros, como sejam a dimensão da zona húmida, o número de zonas húmidas dentro da bacia, o tipo e a profundidade do solo, e a vegetação na bacia, entre outros. As plantas dos pântanos e marismas controlam a erosão, uma vez que as raízes seguram o solo e capturam os sedimentos. As zonas húmidas desempenham, por isso, um importante papel no controlo das cheias e na prevenção da erosão. Os rios e as planícies de inundação com boa vegetação abundante são excelentes na absorção das cheias. As variações das cheias originam solos férteis, utilizados como suporte da agricultura intensiva nas planícies de inundação. Cerca de 520.000 quilómetros quadrados de terra são anualmente cultivados dentro da bacia, parte da qual com agricultura de subsistência dependente do aporte sazonal de nutrientes nas zonas húmidas.

Produtos animais e vegetais

As zonas húmidas da Bacia do Zambeze acolhem uma diversidade de espécies de plantas e animais. Estas zonas são importantes habitats para espécies de peixe, proporcionando-lhes protecção, bem como terrenos adequados de procriação e alimentação. As zonas húmidas suportam a pesca de subsistência, artesanal, ornamental e comercial. As pescarias comerciais de maior relevo têm lugar no Lago Malawi/Niassa, no delta do Zambeze/banco de Sofala e em Cahora Bassa, bem como em Ithezi-tezhi, em Kafue e no Lago Kariba.

A pesca nestas áreas é dependente da disponibilidade de águas ricas em nutrientes fornecida pelas zonas húmidas. No Lago Kariba, a principal pescaria comercial é a da sardinha. Esta sardinha de água doce, ou kapenta, estabeleceu-se também em Cahora Bassa, onde a sua exploração está ainda numa fase de arranque. Contudo, a captura potencial está estimada em 15.000 toneladas por ano. Em 1993, o rendimento anual do Lago Kariba foi de cerca de 30.000 toneladas, avaliadas em 55 milhões de dólares norte-americanos.

O peixe constitui uma das principais fontes de proteína nos estados da bacia. Só no Alto Zambeze, existem 85 espécies de peixe, cujo rendimento potencial está estimado em 14.000 toneladas por ano, enquanto a captura média anual se situa nas 7.500 toneladas. As pescarias nas Planícies de Inundação do Zambeze sustentam cerca de 300.000 pessoas e servem de reserva alimentar a uma grande variedade de aves pescadoras.

A antiga captura de peixe no leste do Caprivi, entre os anos 70 e o início dos 80, foi estimada em 800 toneladas anuais no Lago Liambezi, além de umas 700 a 900 toneladas anuais nos rios Zambeze, Chobe e Cuandu. Todavia, a redução das planícies de inundação devida a cheias insuficientes, particularmente das pouco profundas áreas sazonais de reprodução, assim como a sobrepesca, contribuíram para o declínio da pescaria. O valor anual da captura de peixe em Caprivi é de cerca de 1,8 milhões de americanos, e a produção de peixe de cerca de 1.500 toneladas.

No delta, a crescente pescaria do camarão contribui de modo significativo para a economia Moçambicana. Em Angola, estima-se que 50.000 pessoas sejem empregadas sazonalmente nas pescarias das planícies de inundação, próximo das cabeceiras do Zambeze. No Malawi, a pesca mais importante ocorre no Lago Malawi/Niassa, onde o peixe designado por "chambo" domina esta indústria. Relativamente a outras partes do país, é sabido que o Baixo Shire rende anualmente 10.000 toneladas de peixe.

Os recursos das zonas húmidas podem, até certo ponto, funcionar como tampão aos efeitos da pobreza. As comunidades rurais pobres que vivem próximo de zonas húmidas e com acesso a uma diversidade de recursos "gratuitos" destas zonas, como o caniço, os vimes, a madeira, o peixe, o caranguejo e as plantas comestíveis, são com frequência mais saudáveis e têm uma melhor qualidade de vida do que as comunidades de subsistência que não têm acesso a estes recursos.

As zonas húmidas são também importantes como sustento durante as secas. Tanto as pessoas como a fauna bravia convergem, durante as secas, para as zonas húmidas para obterem água e alimentos. Por exemplo, durante a seca de 1969/70 que afectou o Zimbabwe, 84% dos camponeses com dambos foram capazes de sustentar as suas famílias.

Conservação

A beleza natural e a rica biodiversidade das zonas húmidas transformam-nas em importantes alvos de conservação. Oito por cento da Bacia do Zambeze são áreas protegidas. Muitos dos parques naturais e áreas protegidas da bacia são zonas húmidas. A maior parte das zonas húmidas sustentam números elevados de aves limícolas, que consistem em mais de 500 espécies.

Apesar do número e importância dos produtos e dos valores rendidos pelas zonas húmidas, ainda não foi atribuído a estas zonas o estatuto que exigem. Em toda a bacia existe apenas um local ao abrigo da Convenção de Ramsar, designadamente a Zona Húmida de Lochnivar, na Planície de Kafue. De entre os oito estados ripícolas, só cinco ratificaram a Convenção de Ramsar. A Tanzânia só ratificou esta Convenção em 1998, enquanto Angola, Moçambique e o Zimbabwe ainda não o fizeram. Esta convenção concede estatuto de conservação internacional a zonas húmidas importantes.

As zonas húmidas são um foco importante de conservação, turismo, recreação e educação. O valor ecológico das zonas húmidas da Bacia do Zambeze foi estimado em US$ 15.000 por hectare, por ano. As zonas de mangal e estuário no delta valem entre US$ 10.000 a US$ 100.000 por quilómetro quadrado, por ano.

Ameaças às zonas húmidas

Entre as ameaças que se colocam às zonas húmidas da Bacia do Zambeze contam-se a redução do caudal de- vida a secas e a captações de água, a infestação de plantas aquáticas, os pesticidas, especialmente o dietil-difenil-tricloroetano (DDT), o desenvolvimento de infra-estruturas, como as barragens, a sobre-exploração dos recursos devido à pressão do Homem, as queimadas descontroladas, a poluição e o desflorestamento, entre outras.

As zonas húmidas como o Elephant Marsh, no Malawi, o delta do Zambeze, em Moçambique, o sistema Cuandu/Linyanti/Chobe, que escoa para o Caprivi e o Zambeze, e as planícies de inundação de Kafue, na Zâmbia, encontram-se entre as áreas mais sensíveis da bacia. Todas foram classificadas como tendo uma sensibilidade ambiental "muito elevada".

Existem indicações do declínio da produtividade das zonas húmidas nas Planícies de Inundação do Zambeze, devido à combinação do caudal reduzido e ao aumento da exploração dos recursos naturais devido a uma pressão populacional crescente. Mais para jusante, a proposta de captação de água para abastecer a cidade de Bulawayo e para irrigação, no Zimbabwe, poderá ter um impacto adverso na ecologia de zonas húmidas mais a jusante, como a zona de Mana Pools. Em Livingstone, nas Cataratas Vitória e em Tete, são descarregados no Rio Zambeze efluentes não tratados de esgotos, causando poluição e colocando em risco a saúde dos utilizadores a jusante.

O crescimento de pragas de plantas aquáticas, como a erva do Kariba e o jacinto de água, está relacionado com o aumento do nível de nutrientes nos rios, com os efluentes de esgotos, bem como com as águas de lixiviação ricas em fertilizantes provenientes da agricultura. As novas barragens, como o projecto de desenvolvimento hidroeléctrico proposto paraa garganta de Batoka e a jusante de Cahora Bassa, têm que ser cuidadosamente avaliado em termos do seu impacto potencial na ecologia fluvial. As grandes barragens existentes já reduziram drasticamente as áreas vitais das planícies de inundação na Bacia do Zambeze.

No Lago Kariba, existe um problema com ervas aquáticas, inicialmente com a erva do Kariba e, mais recentemente, com o jacinto de água. Também preocupante é o facto de a regulamentação das pescas ser diferente na Zâmbia e no Zimbabwe. Neste, por exemplo, as redes de emalhar não podem ter uma malha inferior a 100 mm, enquanto na Zâmbia a dimensão limite é de 75 mm.

No Baixo Zambeze e no Vale do Baixo Shire, as zonas húmidas estão sob ameaça devida à densa povoação humana.

Existem indícios de que a retenção de água em Cahora Bassa reduziu substancialmente a área de zonas húmidas no Delta do Zambeze, afectando a produtividade destas áreas em Moçambique e mesmo a captura de camarão no mar. A intrusão de água salgada constitui um grave problema no delta, devido aos caudais reduzidos de água doce e à falta de cheias sazonais significativas. O desenvolvimento de uma nova infra-estrutura proposta à jusante de Cahora Bassa irá piorar a situação ecológica no delta, já de si em declínio. O impacto ambiental das barragens na ecologia e nas necessidades de água das comunidades a jusante do rio, especialmente em Moçambique, não foram ainda totalmente estudadas.

A poluição e a drenagem das planícies de inundação causou também já danos no habitat e o desaparecimento de espécies, especialmente em Caprivi. Desde o início da década de 90 que o Rio Cuandu apresenta uma redução nos caudais de água, resultando em perda de zonas húmidas e redução do número de espécies dependentes destas áreas. A poluição proveniente dos efluentes domésticos e industriais tem aumentado nos últimos anos devido ao crescimento dos centros urbanos ao longo do Rio Zambeze, tais como Mongu, Senanga, Katima Mulilo, Kasane-Kazungula, Sesheke, Livingstone, Victoria Falls, Kariba, Siavonga, Chirundu e Tete. A maior parte destes centros urbanos, incluindo cidades como Blantyre, Bulawayo, Harare e Lusaka, e as infra-estruturas turísticas que aparecem diariamente ao longo do rio, descarregam efluentes no rio e nos seus afluentes.

A sobrepesca nas zonas húmidas da bacia conduziu também ao esgotamento de algumas espécies de peixe. A sobre-exploração da vegetação ripícola, como os juncos e o caniço, está a ameaçar estes ecossistemas e, em última análise, está a conduzir à perda de habitats.

À medida que aumenta a densidade populacional na Bacia do Zambeze, a porção de terra disponível por pessoa decresce, forçando cada vez mais pessoas a estabelecerem-se nas planícies de inundação. O exemplo mais marcante desta situação é o Vale do Baixo Shire, onde mesmo a ilhota mais pequena se encontra agora cultivada e as confrontações com animais como hipopótamos e crocodilos constituem um grave pro- blema.

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