TURISMO
A Bacia do Zambeze ostenta algumas das mais importantes áreas de vida selvagem
e de destinos turísticos na África Austral, com um grande potencial para proporcionar
experiências únicas. Alguns dos parques na- turais e reservas localizadas na Bacia do
Zambeze encontram-se mesmo internacionalmente protegidos como locais importantes. Estes
incluem locais protegidos como Património Mundial ao abrigo da Convenção sobre o
Património Mundial (1975). Alguns exemplos são o Parque Nacional do Lago Malawi, no
Malawi, as Cataratas Vitória, entre a Zâmbia e o Zimbabwe, e o Parque Nacional de Mana
Pools, no Zimbabwe.
Uma proporção substancial da Bacia do Zambeze tem vindo a ser destinada à vida
selvagem e ao turismo. As áreas protegidas abrangem cerca de 27% da área da bacia. A
Tanzânia é a única excepção, não tendo nenhuma da sua pequena área incluída na
Bacia do Zambeze protegida para a fauna bravia.
O Alto Zambeze
Em Angola não existem áreas turísticas na bacia devido à guerra civil. O potencial
turístico é, porém, grande, por um lado devido à rede de zonas húmidas de água doce
importantes e por outro devido à riqueza do país em fauna bravia. Uma parte substancial
a oeste das cabeceiras do Zambeze encontra-se protegida dentro do Parque Nacional de
Kameia (14.450 quilómetros quadrados). No entanto, existem várias populações
estabelecidas dentro do parque, e os conflitos civis têm dificultado a sua gestão
adequada.
Na Zâmbia, os parque nacionais de West Lunga, Liuwa Plain, Kafue e Sloma Ngwezi estão
todos dentro desta parte da bacia. Os Parques Nacionais de Namili e Mudumu, assim como o
Parque Nacional de Caprivi, são as principais atracções da Namíbia. O foco principal
da indústria do turismo no Botswana na bacia é o Parque Nacional de Chobe. Este parque,
criado em 1968, engloba 10.570 quilómetros quadrados. Aqui pode ser encontrada uma grande
variedade de habitats, desde as profundas areias do Kalahari até aos pântanos
permanentes.
O Zambeze Intermédio
As cidades de Lusaka e Harare estão localizadas nesta secção, que é a parte mais
intensivamente utilizada e industrializada da bacia. A área entre as Cataratas Vitória e
Kanyemba, por exemplo, atrai mais de 80% dos turistas do Zimbabwe.
A principal atracção turística nesta secção da bacia são as Cataratas Vitória,
na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabwe. As Cataratas constituem uma das maravi- lhas
naturais do mundo e foram declaradas pelo UNESCO como Património Mundial, em 1989.
Durante os últimos dez anos, o desenvolvimento da indústria turística na área das
Cataratas Vitória quadruplicou, com um desenvolvimento mais marcante na área hoteleira.
Logo após as Cataratas Vitória, a área turística mais importante da bacia, do lado
do Zimbabwe, é o Lago Kariba. Desde que a barragem aumentou a disponibilidade de água
nesta região árida, a área tem atraído grandes números de animais selvagens,
tornando-a num importante destino turístico. O próprio Rio Zambeze e as outras áreas
protegidas são importantes atracções nesta secção da bacia localizada no Zimbabwe. O
excesso das reservas feitas por visitantes em Mana Pools, por exemplo, é indicador da sua
atracção. As reservas são normalmente feitas com 12 meses de antecedência e são, por
isso, decididas por sorteio. Por este motivo, a taxa de ocupação das instalações
hoteleiras tem sido quase sempre de 100%.
O Baixo Zambeze e o sistema
Lago Malawi/Niassa -Rio Shire
O Lago Malawi/Niassa é o mais importante para o turismo nesta secção, tal como o
são as zonas húmidas do Delta do Zambeze, em Moçambique, zonas bem co- nhecidas pela
suas vastas áreas, importância económica e diversidade de espécies.
O Malawi e a Tanzânia fazem parte do sistema Lago Malawi/Niassa - Rio Shire. Embora
não existam áreas especificamente desenvolvidas para o turismo na parte Tanzaniana da
bacia, existem muitas no Malawi, incluindo o Parque Nacional do Lago Malawi. As ilhas ao
largo e parte das margens foram inicialmente protegidas em 1930, mas a protecção das
águas do lago propriamente ditas e da vida aquática, até 100 metros da margem, é um
conceito novo. O Parque Nacional do Lago Malawi foi declarado como Património Mundial em
1984.
Actividades turísticas
Actividades relacionadas com a fauna bravia
A maior parte do turismo dirigido à vida selvagem está desenvolvido em parques
naturais e reservas, onde os grandes mamíferos, como o leão, o leopardo, o elefante, o
búfalo e o rinoceronte, são as principais atracções. Contudo, está a crescer o
interesse por outras formas de vida selvagem, como as aves e as plantas. A localização
da vida selvagem na bacia é, em grande parte, uma consequência da presença actual ou no
passado recente da mosca tsé-tsé e do baixo potencial agrícola da zona. Em relação
aos outros países, o Botswana possui a maior parte da sua área da bacia sob gestão
efectiva da fauna bravia (65%).
Actividades relacionadas com a água
A maior parte das actividades relacionadas com a água, como a canoagem, os passeios de
barco, a descida de rápidos em jangada, o bungee jumping e o mergulho são realizadas no
Rio Zambeze e no Lago Kariba, no Zambeze Intermédio, e no Lago Malawi/Niassa.
A canoagem no Rio Zambeze teve início em 1982 e, desde então, tornou-se popular tanto
no Rio como no Lago Kariba. Cerca de 250 quilómetros de rio estão disponíveis para a
canoagem. Em 1994/95, o número de passeios em canoa nas águas do Zimbabwe foi de cerca
de 1.900, totalizando em 22.800 o número de pessoas transportadas por ano.
A pesca desportiva e os passeios de barco estão concentrados no Lago Kariba e no Lago
Malawi/Niassa. Existem cerca de 2.080 barcos disponíveis para actividades turísticas, a
maioria dos quais está no Lago Kariba. Os cruzeiros de barco são operados a partir de
diversos cais existentes principalmente ao longo da margem do Zimbabwe, embora existam
também dois no lado Zambiano.
A descida de rápidos em jangada e o bungee jumping são provavelmente os desportos
aventurosos que se destacam em oferta. As gargantas a jusante das Cataratas Vitória
constituem um dos melhores percursos de rápidos do mundo com a duração de um dia. O
bungee jumping a partir da Ponte das Cataratas Vitória, com a sua queda de 111 metros, é
o salto comercial mais elevado do mundo e tornou-se uma adição importante aos desportos
aventurosos atrativos. Estima-se que anualmente saltam cerca de 7.500 pessoas.
O Lago Malawi/Niassa é também um local popular para pescadores, principalmente devido
às suas muitas espécies de peixes. Existem cerca de 500 espécies de peixes no lago,
tornando-o um local popular para a prática do mergulho.
Impacto do turismo no ambiente
O comportamento dos turistas é muitas vezes motivado pelas condições do meio
ambiente. Embora outras componentes, como as infra-estruturas existentes, a estabilidade
política e a estrutura social, sejam essenciais para o sucesso do turismo, estas são
irrelevantes se o meio ambiente não for atraente. A ameaça futura ao meio ambiente
reside no crescimento descontrolado do turismo e na pressão e procura que serão impostas
sobre os recursos naturais da Bacia do Zambeze. As áreas facilmente acessíveis a grandes
números de pessoas estão particularmente ameaçadas.
O impacto mais significativo do maior número de visitantes à Bacia do Zambeze é a
expansão do número de hotéis e de infra-estruturas turísticas para responder a esta
procura, bem como o melhoramento da rede de estradas.
O impacto de actividades como a descida de rápidos, a canoagem e os cruzeiros de barco
estão directamente relacionados com a poluição e o lixo. O número de barcos no Lago
Kariba, por exemplo, é muito elevado, e a poluição por óleo e combustíveis é causada
por fugas ou derrames acidentais vindos dos motores e/ou do despejo deliberado de
derivados do petróleo no lago. Estes produtos são nocivos para animais e pessoas e
reduzem a qualidade da água.
A poluição sonora é também elevada e a acção contínua das ondas devida às
esteiras danifica as margens, perturbando a micro-ecologia. Existe ainda a preocupação
de a pesca desportiva poder vir a sobre-explorar as espécies de peixes alvo. Este
desporto levou ainda à introdução de espécies exógenas em algumas áreas, como a
truta e a perca, ambas muito procuradas pelos pescadores.
A qualidade da água pode ser prejudicada pelas descargas de efluentes das residências
turísticas e das vilas, pelo assoreamento devido à erosão causada pela perturbação
das margens, pela sobre-exploração dos recursos das zonas húmidas, como o caniço e o
peixe, e pela poluição por pesticidas, combustíveis e outros produtos químicos. A
flora e a fauna, que contribuem enormemente, se não exclusivamente, para o atractivo da
Bacia do Rio Zambeze, necessita de um fornecimento suficiente de água de boa qualidade.
A indústria de souvenirs desenvolveu-se como efeito secundário do turismo e é um
grande consumidor de madeiras indígenas. Com a expansão do turismo, a procura de
souvenirs aumentou em muitas áreas. Crê-se que o corte excessivo localizado de árvores
indígenas grandes e cada vez mais raras está a ocorrer a uma taxa insustentável e,
muitas vezes, ilegalmente. Calcula-se que sejam esculpidos um total de cerca de 246 metros
cúbicos de madeira todos os anos.
Nas áreas de agricultura comercial, áreas de preservação e áreas de gestão
comunitária dos recursos naturais (GCRN), a gestão da fauna bravia pode entrar em
concorrência com a agricultura, uma vez que as terras cultivadas estão a ser
transformadas em reservas de animais e em zonas tampão de fauna bravia. Se se mantiver a
actual tendência de conversão das terras de cultivo em reservas de animais, a segurança
alimentar e a auto-suficiência podem ser ameaçadas. Todavia, em algumas destas áreas,
em particular nas mais secas, a economia de gestão da fauna bravia é melhor que a do
cultivo das terras. As reservas de animais associadas ao turismo são consideradas como
uma opção de utilização da terra mais sustentável e produtiva do que a agricultura.
Desafios futuros
As preocupações relativas à viabilidade da indústria do turismo giram em torno do
meio ambiente e da distribuição dos seus custos e benefícios sociais e económicos.
Assim, um dos desafios futuros ao desenvolvimento sustentável da indústria do turismo é
o de convencer todas as partes interessadas de que o turismo não pode continuar a crescer
sem que sejam considerados os impactos nos sistemas que sustentam a vida na natureza.
Para que o turismo se torne um sector económico forte na Bacia do Zambeze, e que se
torne uma força na criação de postos de trabalho e no combate à pobreza, é importante
que seja mantida a relação simbiótica entre esta actividade e um ecossistema saudável.
Para que se atinja um equilíbrio entre turismo e ecologia, alguns dos desafios futuros a
enfrentar são:
- Planeamento eficiente, tal como a previsão satisfatória da pressão e capacidade
turísticas.
- Marketing turístico orientado pelos recursos naturais.
- Cooperação melhorada entre as organizações envolvidas nesta indústria.
- Consciencialização suficiente dos operadores sobre os efeitos do turismo no ambiente.
- Maior cooperação entre os sectores público e privado e entre os governos dos estados
da bacia relativamente ao turismo.
É ainda fundamental que o desenvolvimento e a actividade turísticos na área
desenvolvam laços com as comunidades locais. Devem ser vigorosamente procurados
mecanismos para uma partilha justa dos benefícios. Isto tem a finalidade de evitar
impactos sociais negativos do turismo, como sejam as alterações culturais e os
comportamentos anti-sociais, incluindo pedintes, prostituição e abuso do álcool. É,
por isso, necessário que os programadores e os governos nacionais minimizem os impactos
sociais negativos provenientes do desenvolvimento turístico na Bacia do Zambeze. A
actividade turística deve também assumir essa responsabilidade, a de optimizar os
benefícios e minimizar os "custos sociais", através de uma melhor compreensão
dos problemas.
No geral, o turismo como indústria, se satisfatoriamente gerido, tem potencial para
promover o crescimento sustentável regional nos países da bacia.
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