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Sumário


 

 

A maior parte das mulheres é mal paga, e a proporção do rendimento familiar e do poder de decisão não são proporcionais ao seu trabalho.

 

 

As questões chave referentes ao género que têm impacto sobre o meio ambiente estão relacionadas com o acesso e a propriedade dos recursos. Estudos realizados indicam que apesar das mulheres carregarem um fardo maior em termos produtivos e reprodutivos, não desfrutam de direitos semelhantes emtermos de acesso aos recursos.

 

 

As mulheres continuam em grande medida ausentes em todos os níveis de formulação de políticas e de tomada de decisões sobre recursos naturais e na gestão, conservação, protecção e reabilitação ambientais.
Estado do Ambiente na
Bacia do Zambeze
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GÉNERO

As características culturais de uma comunidade têm uma forte influência sobre as relações sociais entre os sexos. A cultura e a tradição moldaram a sociedade de um modo tal que existe hoje uma relação muito forte entre o tipo de trabalho, direitos e acesso, e o género. No que se refere a estas questões, não existe uma grande diversidade cultural entre as tribos que residem na bacia. Todas as culturas existentes na bacia colocam a mulher em posição subordinada.

Papéis da mulher e do homem na bacia

De um modo geral, o papel tradicional do homem na sociedade é o de providenciar o sustento e de defen-der a família contra quaisquer perigos. Apesar de tanto homens como mulheres participarem nas esferas da economia, são atribuídas às mulheres obrigações adicionais, que se incluem no domínio doméstico, como sejam a preparação das refeições e os papéis produtivo e reprodutivo. À medida que a sociedade se desenvolve, o papel da mulher altera-se para atender tanto às necessidades sociais como às do agregado familiar mas, ainda assim, dentro da divisão tradicional de tarefas. No que se refere às tarefas das mulheres, a maior parte delas são realizadas dentro ou em torno da casa, o que as torna muito presas ao lar.

Divisão do trabalho

Existem provas substanciais que documentam a desigual divisão do trabalho entre mulheres e homens na bacia. Na Tanzânia rural, por exemplo, as mulheres trabalham mais de 14 horas por dia, enquanto os homens trabalham apenas 10 horas. O declínio da disponibilidade de recursos e as elevadas taxas de emigração masculina das áreas rurais em busca de emprego, têm aumentado as exigências de trabalho para as mulheres.

No Zimbabwe, o trabalho masculino tem, normalmente, picos sazonais (lavrar a terra e apascentar o gado) ou é realizado apenas uma vez ao longo de muitos anos (construção de casas e de celeiros). Esta situação permite aos homens arranjarem trabalho permanente ou sazonal em outros locais. Em contraste, algumas das tarefas das mulheres podem ser sazonais como, por exemplo, a monda e a colheita, mas as tarefas sociais reprodutivas são tarefas diárias. Não são passíveis de transferência para os homens devido à prática cultural costumeira.

As estatísticas referentes ao género na Bacia do Zambeze revelam que:

  • as mulheres constituem a maioria da população, até 65%, já que a maior parte dos homens migraram para centros urbanos, muitos deles fora da bacia, em busca de emprego;
  • as mulheres constituem grande parte dos pobres;
  • as mulheres estão mais baseadas nas áreas rurais do que os homens, e permanecem na periferia do desenvolvimento humano e da governação;
  • o nível de educação a que as mulheres têm acesso é mais baixo do que o dos homens;
  • as mulheres trabalham mais horas do que os homens;
  • a maior parte das mulheres é mal paga, e a proporção do rendimento familiar e do poder de decisão não são proporcionais ao seu trabalho.

As questões chave referentes ao género que têm impacto sobre o meio ambiente estão relacionadas com o acesso e a propriedade dos recursos. Estudos realizados indicam que apesar das mulheres carregarem um fardo maior em termos produtivos e reprodutivos, não desfrutam de direitos semelhantes em termos de acesso aos recursos. Dentro de uma comunidade, os direitos e o acesso a recursos são muitas vezes determinados por laços de parentesco, pela divisão de trabalho baseada no género e pelo tipo de produção. É comum os homens terem direito a recursos como a terra, a água e as pescas. Chegam mesmo a ter o direito de controlar e afectar parte do trabalho feito por mulheres e crianças em culturas sobre as quais os homens têm controlo global e das quais retêm o rendimento. Geralmente, as mulheres não têm direitos sobre a maior parte dos recursos naturais, e tal não acontece à custa do trabalho dos homens. No que toca à gestão dos recursos naturais, normalmente os homens têm direitos totais de trespasse, enquanto as mulheres apenas têm direitos de usufruto.

Em toda a região, a regra é a de que as mulheres têm menos acesso aos meios de produção, tais como a terra, aos serviços de apoio e ao crédito. Na Zâmbia, por exemplo, 90% da terra disponível para agricultura é terra tradicional, controlada por chefes que seguem princípios patriarcais para a sua distribuição. Numa situação destas, as mulheres não têm acesso directo à terra.

Segundo a lei costumeira Tswana, o acesso da mulher à terra no Botswana é através do homem. Embora todas as pessoas devessem ter igualdade de acesso à terra, na realidade o acesso é diferenciado de acordo com o género. As mulheres solteiras ou divorciadas encontram-se entre os agregados familiares mais pobres, sem acesso a terra produtiva por falta de meios para utilizarem essa terra. Nas aldeias rurais, é muitas vezes recusada terra a mulheres sob direito próprio, sendo estas aconselhadas a solicitarem-na através dos seus maridos, que têm poder marital sobre os bens do agregado familiar.

Em grande parte da África rural, a insegurança alimentar e a má nutrição podem ser parcialmente atribuídas à falta de acesso e de controlo sobre a terra por parte das mulheres. De um modo geral, em toda a Bacia do Zambeze os homens possuem mais gado do que as mulheres. No Botswana, por exemplo, as mulheres detêm apenas 14% do número total de cabeças de gado bovino. Esta marginalização relativa à propriedade do gado reflecte não só a pobreza feminina mas também que aqueles que possuem terra sem terem acesso a gado, também não têm acesso à força de tracção para arar a terra. Acabam por arar tarde, menos hectares, obtendo menores rendimentos. Isto tem repercussão na segurança alimentar do agregado familiar.

Água e saneamento

Na região, o acesso a fontes seguras de água e a saneamento é, geralmente, limitado. Mais de 50% dos povos da região da SADC não têm acesso a saneamento, e mais de 40% encontram-se sem acesso a água potável. Devido à escassez de água em muitos dos países ripícolas, as mulheres, particularmente as das áreas rurais, são forçadas a caminhar grandes distâncias para recolher água. De acordo com uma estimativa do Banco Mundial, algumas mulheres africanas consomem 40% da energia que ingerem em deslocações em busca de água.

Outro levantamento, realizado pelo UNICEF em áreas rurais da Namíbia, concluiu que os agregados familiares encabeçados por mulheres encontram-se a cerca de 20 minutos de caminhada mais longe das fontes de água durante a estação seca, comparativamente à estação húmida.

Apesar das estimativas serem diferentes nos diversos países, na Zâmbia, por exemplo, o acesso a fontes de água protegidas nas áreas rurais e peri-urbanas variam entre 25% e 60%. Nessas mesmas áreas, o acesso a saneamento oscila entre 40% e 50%.

Devido à degradação do meio ambiente e ao desflorestamento, as mulheres da região despendem agora mais tempo em busca de lenha, de água e de alimentos, e têm menos tempo para cozinhar, forçando-as a diminuir o número de refeições cozinhadas e o seu valor nutritivo. Em Moçambique, as mulheres passam, por semana, 15.3 horas, durante a estação seca, e 2.9 horas, durante a estação das chuvas, a tirar e transportar água das fontes. No Malawi, um estudo realizado indica que, em cada agregado familiar, 5% de todos os dias e noites do ano são gastos na recolha de água.

Energia

A lenha é utilizada como combustível doméstico para finalidades como cozinhar e aquecimento. É ainda utilizada no processamento das colheitas, na fermentação de cerveja, na olaria, na fumagem de peixe, na cozedura de tijolos e em outras indústrias rurais de pequena escala.

O uso intensivo de lenha está a contribuir para uma grave degradação do meio ambiente, devido à ao desflorestamento e, em última análise, à erosão dos solos e à sua baixa fertilidade. Mas, ao contrário de algumas opiniões, as mulheres são mais vítimas do que intervenientes no desflorestamento, já que geralmente obtêm lenha a partir de ramos e de madeira morta, em vez de abaterem árvores vivas.

Na região da SADC, durante o período 1990- 1995, a taxa de desflorestamento foi de cerca de 0,7%. Às taxas actuais de desflorestamento, um terço das florestas da SADC terá desaparecido em meados do século XXI. Uma vez que a recolha de lenha é principalmente tarefa das mulheres, elas são as mais afectadas pela escassez deste combustível. No Malawi, por exemplo, onde as florestas estão a desaparecer a uma taxa de 3,5% ao ano, as mu- lheres gastam entre seis a nove horas por semana na recolha de lenha para utilização familiar.

Enfrentando a desigualdade entre os sexos Aspectos legais

Ao longo dos últimos anos, têm sido realizados na bacia esforços para melhorar o estatuto da mulher, bem como para proteger e salvaguardar os seus direitos humanos. Ao nível regional, os chefes de Estado e de governo da região da África Austral têm-se empenhado na protecção e promoção dos direitos humanos das mulheres e crianças, pela adopção da Declaração sobre o Género e Desenvolvimento, de Setembro de 1997.

As questões do género têm sido incorporadas na agenda da SADC, e foi estabelecida uma unidade dedicada ao género no âmbito do Secretariado da SADC, em Gaborone. Alguns dos sectores da SADC têm também desenvolvido políticas sectoriais relativas ao género. O Sector de Gestão Ambiental e da Terra (ELMS) da SADC adoptou uma política de género elaborada, a Unidade de Coordenação do Sector da Água (WSCU) encontra-se a trabalhar num programa para conferir mais poderes às mulheres e melhorar a sua participação neste sector.

Ao nível nacional, todos os países que integram a bacia ratificaram a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW). A CEDAW, tomada como a constituição global para as mulheres, proporciona uma base para efectivar a igualdade entre homens e mulheres.

Em Moçambique, a Constituição garante que todos os cidadãos têm o direito de viver num meio ambiente equilibrado e o dever de o defender. O go- verno aprovou também a Lei do Ambiente, em 1997, que tem por objectivo alcançar o desenvolvimento sustentável do país, e enfatiza em particular o papel da mulher na gestão do meio ambiente.

Uma secção da Política Ambiental Nacional do Malawi apela à integração das preocupações sobre género, jovens e crianças no planeamento ambiental e na tomada de decisões a todos os níveis, para garantir o desenvolvimento sustentável social e económico. Os esforços para fazer face às questões sobre o género e torná-las centrais em todos os aspectos do desenvolvimento receberam um impulso com o aval da igualdade entres os sexos na Quarta Conferência Mundial sobre a Mulher, que teve lugar em Beijing, na China, em 1995 (também conhecida como Conferência de Beijing). Tal aval é encarado como uma das mudanças mais radicais que ocorreram nos últimos anos.

Desafios Aspectos legais e políticos

Apesar das reformas legais realizadas, as mulheres da região da bacia ainda são alvo de discriminação sexual e de violação dos seus direitos. É normalmente assumido pelos legisladores que a lei afecta tanto os homens como as mulheres, mas a realidade é diferente. Muitas das mulheres da bacia não usufruem dos direitos que a lei lhes garante especificamente, devido a muitos factores.

Assim, a reforma legal na bacia tem que ser complementada com acções focalizadas, dirigidas a corrigir as desigualdades e a nivelar as oportunidades entre homens e mulheres. Continua a existir um desafio crítico e bem real na medida em que mesmo nos casos em que existem disposições legais relativamente à igualdade entre os sexos, os mecanismos de imposição destas leis são fracos ou inexistentes.

Embora os países que integram a bacia tenham diversas políticas que, directa ou indirectamente, protegem o meio ambiente, não são muitas as que incorporam as questões do género. Muitas dessas políticas tendem a ser cegas relativamente ao facto de as mu- lheres se relacionarem com o ambiente de um modo diferente do dos homens.

As mulheres continuam em grande medida ausentes em todos os níveis de formulação de políticas e de tomada de decisões sobre recursos naturais e na gestão, conservação, protecção e reabilitação ambientais. A sua experiência e capacidades na defesa e fisca- lização de uma gestão adequada dos recursos naturais são, com demasiada frequência, marginalizadas nos organismos de formulação de políticas e de tomada de decisões, bem como nas instituições de ensino e nas agências relacionadas com o meio ambiente ao nível da gestão.

Investigação específica sobre o género

A informação sobre a magnitude e gravidade dos diversos problemas ambientais da Bacia do Zambeze e o seu impacto nas mulheres comparativamente aos homens, é insuficiente. Esta situação é devida à falta de investigação específica sobre o género, na bacia. São necessários mais dados e indicadores para salientar a importância da disparidade entre os sexos na Bacia do Zambeze, que possam contribuir para solucionar as deficiências actuais.

A compreensão das questões do género é uma parte lógica de uma abordagem do desenvolvimento, sensível aos recursos. Assim, as diferenças e desigualdades entre os sexos deverão ser tomadas em consi- deração para que as intervenções no sentido do desenvolvimento sejem eficazes na resposta às necessidades das mulheres e dos homens, hoje e no futuro.

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