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Sumário


 

 

A resoluçao das várias questões na bacia através da abordagem dos ecossistemas é um conceito novo na bacia, repleto de incertezas e riscos que os governos nacionais poderão não querer assumir.

 

 

Sem investimento na recolha e análise de dados, a magnitude do papel da mulher na gestão dos recursos naturais continuará a ser irrisória, afectando a sua contribuição para o desenvolvimento sustentável

 

 

Estado do Ambiente na
Bacia do Zambeze
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CENÁRIOS PARA O FUTURO

As tendências na região constituem marcos para o futuro, oferecendo um retrato de como será provavelmente a vida na bacia. Os cenários informam a sociedade sobre em que é que esta provavelmente se transformará se forem realizadas hoje determinadas intervenções. Da história do desenvolvimento da Bacia do Zambeze emergem dois cenários distintos: o caminho já muito batido que a sociedade tem andado a percorrer, ou a nova estrada em direcção a um estado sustentável.

Em direcção a um estado de sustentabilidade

A estrada familiar da gestão ambiental na Bacia do Zambeze é clara: é definida ao longo das fronteiras nacionais, juntamente com as trajectórias administrativas e sectoriais, na qual a possibilidade de desvios é limitada. A resolução das várias questões na bacia através da abordagem dos ecossistemas é um conceito novo na bacia, repleto de incertezas e riscos que os governos nacionais poderão não querer assumir. É, por isso, mais confortável e conveniente recorrer a tal abordagem enquanto se afinam as inovações mais recentes. A estrada que leva ao estado de sustentabilidade implica grandes mudanças em relação a questões como população, pobreza, género, investimento, gestão da água, biodiversidade e política e gestão.

Crescimento populacional

Na Bacia do Zambeze, o número de pessoas aumenta cerca de um milhão por ano, a maioria das quais têm que depender do capital de recursos naturais para sobreviver. Este crescimento não é sustentável. Com uma população total de mais de 38,4 milhões de pessoas, número que duplicará em menos de três décadas, a bacia continuará a ser alvo da procura de água para uso doméstico, industrial e irrigação, que será retirada da água necessária para a regeneração ambiental.

Em termos do meio ambiente, a elevada taxa de crescimento populacional estimula a exploração dos recursos. Se deixada sem controlo, a sobre-exploração pode conduzir à extinção de algumas espécies. A expansão do povoamento devida ao crescimento populacional não só contribui para a utilização de áreas ecologicamente sensíveis, como também intensifica os conflitos entre homens e animais. Os relatos de tais conflitos na bacia estão a aumentar.

Pobreza

O fracasso do combate eficaz à pobreza galopante na bacia continuará a constituir uma grave ameaça à saúde tanto das pessoas como do meio ambiente. Com a maioria das pessoas sem qualquer tipo de dignidade humana devido à pobreza, o desafio que se coloca aos estados da bacia é o de lutar pelo desenvolvimento económico para melhorar o nível de vida da maioria, e não apenas o de facilitar a acumulação de riqueza de alguns. Este é geralmente o caso em muitos dos países, que é uma bomba-relógio se se continuar a negar à maioria o acesso mesmo que seje aos recursos mais elementares. Sem certeza de posse e acesso aos recursos, a "tragédia da gente vulgar", como postulado por Garrett Hardin em 1968, afastará qualquer hipótese de iniciativas de desenvolvimento sustentável, uma vez que os pobres sobre-exploram os recursos.

Género

Apesar da sensibilidade em relação às questões do género estar a aumentar, a aplicação das considerações sobre o género é ainda ténue. Um dos factores intervenientes é a falta de dados fiáveis, desagregados por sexo. A continuação da ausência da recolha de dados deste tipo, como é o caso no momento, continuará a entravar os esforços de inclusão das questões do género em todos os aspectos do desenvolvimento humano e da gestão ambiental. Sem investimento na recolha e análise de dados, a magnitude do papel da mulher na gestão dos recursos naturais continuará a ser irrisória, afectando a sua contribuição para o desenvolvimento sustentável. Uma outra ameaça à valorização do papel da mulher é o chauvinismo aparente apresentado por alguns dos que se referem à luta pelos direitos da mulher como sendo um fenómeno urbano, sem apoio no meio rural.

A tendência actual mostra que as mulheres constituem ainda um grupo vulnerável, que ainda não desfruta de igualdade de estatuto e de acesso a serviços e recursos relativamente aos homens.

Emprego

Com o rápido crescimento populacional em muitos dos estados da bacia, a força de trabalho está também a crescer a um ritmo acelarado. Dada a lenta taxa de crescimento económico, centenas de milhares de pessoas encontram-se numa situação de desemprego. No Zimbabwe, o desemprego tem sido apresentado como um motivo para o aumento do garimpo do ouro. O desemprego tambem tem aumentado no sector informal. Apesar deste ser agora uma parte importante da economia, algumas actividades do sector informal, como a produção de souvenirs, conduziu à sobre-exploração das florestas para o suporte da indústria da escultura de madeira.

A restruturação económica resultou no declínio gradual do emprego formal. A Zâmbia, por exemplo, tinha em 1986 uma taxa de desemprego de 13%, que aumentou para 19,6% em 1996, representando um total de 730.000 pessoas sem emprego. A implantação do programa estrutural de ajustamento económico contribuiu para o declínio do emprego formal, bem como para a deterioração não só do nível de vida das pessoas mas também do meio ambiente. Ainda na Zâmbia, os desempregados estão a ocupar áreas florestais na sub-bacia de Kafue, provocando um enorme desflorestamento e conduzindo à degradação das linhas divisórias de água, afectando a qualidade e a quantidade da água. A dependência dos sectores de recursos continuará a constituir um risco para os estados da bacia, aumentando o desemprego e contribuindo indirectamente para a "mineração" dos recursos naturais e a resultante degradação do meio ambiente.

HIV/SIDA

A África Austral é a região mais atingida pelo HIV/SIDA, com cerca de 19 milhões de infectados em 1997. O HIV/SIDA, que tem sido descrito na SADC como "um dos maiores problemas sociais com que África se defronta", continuará a progredir na bacia, com muitos dos seus países já a sofrerem um declínio na esperança de vida. Apesar do reconhecimento de que o SIDA é uma epidemia, as respostas regionais até à presente data não têm sido muito eficazes. Na realidade, alguns dos países tentaram varrer o problema para baixo do tapete, de modo a que não pusesse em risco o investimento e o turismo. O HIV/SIDA tem ainda colocado grandes pressões no sector da saúde, fazendo os custos dos serviços de saúde subir em espiral e aumentando o custo da importação de medicamentos. São muitos os milhares de pessoas que não têm acesso aos medicamentos essenciais e, nos casos em que estes existem, os custos são proibitivos. O HIV/SIDA está a matar na bacia muitas pessoas em idade reprodutiva, o que contribui para a baixa capacidade humana em muitas áreas. O verdadeiro custo desta epidemia está ainda por ser compreendido.

Água

A procura crescente dos recursos aquáticos na bacia pode originar muitas oportunidades para a cooperação regional ou pode vir a criar conflitos. O planeamento ineficaz, que não considera as necessidades crescentes das pessoas e da indústria, é insustentável e resultará em competição desnecessária nos estados da bacia e entre eles. Alguns países passaram já por conflitos originados pela utilização da água, que têm atiçado comunidades umas contra as outras. De acordo com as projecções, o Malawi atingirá a escassez absoluta de água em 2025, enquanto Moçambique, a Tanzânia e o Zimbabwe estarão com dificuldades em obtê-la. Os restantes estados da bacia terão problemas com a qualidade da água e com as estações secas. Estas projecções podem vir a confirmar um desastre se não se iniciar agora o planeamento para os próximos 25 anos.

A bacia carece ainda de instrumentos sócio-económicos que encorajem a eficiência de custos, aumentem o investimento nas infra-estruturas relacionadas com a água e dêem incentivos à utilização eficiente da água e ao controlo da poluição. As abordagens descendentes, que são comuns na bacia em termos de abastecimento de água, limitam também a participação pública, ao mesmo tempo que promovem padrões insustentáveis de consumo de água. Todas estas medidas deverão ser revistas e tornadas mais eficazes.

Zonas húmidas

As zonas húmidas do Zambeze desempenham um importante papel no aumento da qualidade de vida das populações destas áreas. Se fôr permitida a expansão do povoamento humano e outras actividades nas zonas húmidas, tal riqueza pode, porém, perder-se, e mais pessoas rurais poderão empobrecer. Tal expansão pode ainda conduzir ao declínio das actividades relacionadas com o turismo. A destruição das zonas húmidas é uma realidade. Fora da bacia, por exemplo na África do Sul, perderam-se já 50% das zonas húmidas devido à sobre-exploração e à expansão da agricultura. Nas Maurícias, o desenvolvimento de locais para o turismo, como hotéis e outros alojamentos turísticos, está a ocupar a maior parte das zonas húmidas.

Biodiversidade

A propensão da gestão relativamente a uma ou mais espécies à custa de outras dá cobertura à exploração ou até à extinção de outras. A selectividade em termos de conservação da biodiversidade é uma atitude sem visão e insustentável.

Várias espécies, como o rinoceronte negro, foram no passado sobre-exploradas até à extinção ou estão agora ameaçadas. A sobre-exploração tem também impacto sobre outras espécies, incluindo plantas. O desbravamento de florestas constitui uma das maiores ameaças à biodiversidade, devido à destruição dos habitats. Nos estados da bacia, por exemplo, entre 1990 e 1995 foram convertidos a outras utilizações um total de cerca de 1,15 milhões de hectares de florestas por ano. Nesse mesmo período, a cobertura florestal total da bacia diminuiu de cerca de 147,1 milhões de hectares para 141,3 milhões.

Existe, assim, necessidade de uma conservação mais holística da biodiversidade, abrangendo mais espécies e centrando-se na bacia como um todo, em vez de o fazer em áreas seleccionadas ou mais populares. Uma abordagem como esta ajudará também a compreender as complexas interacções que constituem os ecossistemas. Novas espécies, que têm até agora sido ignoradas ou desconhecidas, receberão atenção, desvendando alguns dos tesouros da biodiversidade existente na região.

Política e estratégia

Virtualmente todos os países da bacia têm uma ou mais políticas relacionadas com o meio ambiente e o desenvolvimento. Infelizmente, algumas destas políticas não estão em sintonia, resultando muitas vezes em competição entre os interesses sectoriais. Tal abordagem à gestão ambiental, que tem caracterizado o século XX, só pode exacerbar uma situação insustentável. As políticas nacionais, que também não têm estado em sintonia com as tendências regionais, só podem servir para realçar as actividades insustentáveis.

A nível regional, a SADC tem sido descrita como "uma das organizações regionais de maior sucesso que alguma vez existiu na África sub-Sahariana, talvez mesmo em todo o mundo em desenvolvimento". O perigo de tal cooperação é a soberania. Tem sido argumentado que os países devem renunciar algum do poder de decisão em favor da SADC, para que a coope- ração regional resulte em benefícios substanciais. Por exemplo, para que funcione na região uma zona de comércio livre, são necessários "importantes passos institucionais e a perda de soberania". Isto também se aplica à cooperação em todos os outros sectores, particularmente à Bacia do Zambeze. Esta situação é muito pouco provável a curto prazo e pode entravar os esforços que se estão a realizar para encarar a bacia como uma unidade. O resultado seria que os interesses nacionais continuariam a dominar, contribuindo para políticas e estratégias insustentáveis. A vontade política e institucional tem que ser alimentada.

As iniciativas políticas e estratégicas deverão responder melhor aos desenvolvimentos científicos. Ainda que estejam desenvolvidas a nível sectorial ou de questões particulares, as políticas e estratégias deverão fazer uma abordagem mais integrada, que reflicta a complexidade do desenvolvimento humano e das funções ecológicas. As unidades de coordenação sectorial da SADC, bem como os pontos nacionais de contacto, deverão desenvolver uma maior coordenação aos níveis nacional e regional. Quando as políticas e estratégicas forem mais coesivas, a região da SADC poderá ter capacidade de contribuir em diferentes fóruns internacionais convocados para discutir questões ambientais e de desenvolvimento.

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