GESTÃO AMBIENTAL E COOPERAÇÃO REGIONAL
A Bacia do Zambeze tem sido gerida de modo desigual dentro das oito fronteiras
nacionais definidas durante o colonialismo. Até muito recentemente, estas oito partes
nacionais, totalizando no seu conjunto 1.321.900 quilómetros quadrados, nunca foram
encaradas como um todo, mas antes como componentes independentes capazes de subsistir fora
da unidade natural que é a bacia, a terceira maior de África. O resultado foi que o Rio
Zambeze e/ou os seus afluentes eram encarados como começando e terminando dentro das
fronteiras nacionais.
Historicamente, o desenvolvimento de projectos na bacia era primeiramente e sobretudo
realizado dentro do contexto nacional, por oposição ao regional. Isto foi resultado de
um contexto político então existente. A cooperação regional na Bacia do Zambeze só
foi iniciada a sério quando os ventos da mudança política começaram a soprar na
região. A década de 80 assistiu à independência do Zimbabwe e ao início do processo
que conduziu à independência da Namíbia, em 1990. Antes destas alterações, os países
da região estavam em conflito, apoiando os movimentos de libertação do Zimbabwe e da
Namíbia na sua luta contra o colonialismo e a ocupação ilegal. Isto aconteceu
particularmente durante os anos 70.
Impacto da guerra
Muito embora os esforços para gerir a Bacia do Zambeze como uma unidade tenham
começado nos anos 80, antes da independência da Namíbia, só foi alcançado um
progresso significativo depois do fim da guerra civil em Moçambique, em 1992, após a
assinatura do acordo de paz entre o governo da Frelimo e os rebeldes da Renamo. Esta
situação foi consolidada com as eleições multipartidárias de 1994, que não só
mantiveram o governo da Frelimo como confirmaram a Renamo como partido principal de
oposição.
Em Angola, as esperanças de paz foram alimentadas após as eleições de 1992 e de um
novo acordo de paz em 1994, mas o país encontra-se novamente assolado pela guerra. A
guerra Angolana desviou todas as atenções e recursos do governo de alguns assuntos
regionais. A guerra tornou difícil a realização de qualquer trabalho substancial nas
partes da bacia localizadas em Angola.
A guerra impõe enormes custos sociais, económicos e ecológicos a um país. Por
exemplo, no auge da luta anti-apartheid na África do Sul, os países da SADC perderam US$
60 biliões entre 1980 e 1988 pela exportação e investimento perdidos, pelas avultadas
despesas com a defesa e os danos nas infra-estruturas devidos à destabilização
económica e à sabotagem. Só em 1988, estes países perderam US$ 10 biliões.
Virtualmente todos os países que integram a Bacia do Zambeze sofreram já no passado
conflitos armados, verificando-se a destruição das estruturas de gestão ambiental em
alguns países, e uma enorme canalização dos escassos recursos financeiros para a compra
de equipamento militar.
Nos casos em que existiu já cooperação regional dentro da bacia, foi definida de
acordo com parâmetros lineares: conduzir água quer para fins de produção
hidroeléctrica de energia, quer de irrigação. Foi dada prioridade a considerações de
engenharia, em detrimento das sociais e/ou ecológicas. Os impactos da construção de
barragens sobre os deslocados ou sobre os habitats alagados eram secundários. As
barragens de Kariba e de Cahora Bassa constituem bons exemplos.
Porém, ao longo dos 40 anos da existência a Barragem de Kariba, bem como a adopção
das Regras de Helsínquia, que regem a gestão dos cursos de água partilhados, o aumento
da compreensão dos sistemas de gestão ambiental e da ecologia têm ajudado a reformular
o pensamento sobre como a Bacia do Zambeze deverá ser gerida. As partes separadas dentro
de fronteiras nacionais estão agora a ser encaradas como um todo, cuja gestão eficaz é
essencial à sustentabilidade das partes independentes. A Bacia do Zambeze está agora a
ser encarada como um ecossistema completo, em vez da soma das suas partes.
Políticas nacionais e cooperação regional
A cooperação entre as várias partes interessadas a nível nacional tem contacto com
a cooperação a nível regional dentro da bacia. A nível nacional, a gestão dos
recursos ambientais e aquáticos é complexa, com muitos ministérios e departamentos
envolvidos de uma forma ou de outra. Isto pode ser necessário, uma vez que é geralmente
aceite que existe força na quantidade. No entanto, isto pode também ser
contraproducente, particularmente se existem atritos entre os diferentes intervenientes
governamentais na mesma área.
Embora os países da SADC se tenham comprometido a apadrinhar a cooperação regional
em muitos sectores diferentes, isto não foi ainda, nem de longe nem de perto, traduzido
em termos práticos de implantação a nível nacional. A cooperação existe
principalmente a nível governamental e, em alguns casos, de instituições
para-governamentais, como as universidades, mas não existe a nível comunitário. Foi só
recentemente que as comunidades envolvidas em programas de gestão comunitária de
recursos naturais começaram a partilhar experiências.
A cooperação entre os oito estados da Bacia do Zambeze é largamente definida no
contexto da SADC. Tal cooperação foi articulada em 1992 no Tratado da SADC e em outros
protocolos, políticas e tratados relevantes.
Para além do Secretariado da SADC, sediado em Gaborone, no Botswana, a SADC tem os
seus programas descentralizados, confiando a cada um dos estados membros a coordenação
de um sector ou sectores específicos. O Lesoto gere os sectores do meio ambiente e da
água sob duas unidades separadas de coordenação: o Sector de Gestão Ambiental e da
Terra (ELMS), sob o qual foi iniciado o ZACPLAN, e a Unidade de Coordenação do Sector da
Água (WSCU). Outros sectores/instituições cujos mandatos também apontam para a
cooperação na Bacia do Zambeze são:
- Unidade de Coordenação do Sector da Energia, em Luanda, Angola.
- Pesca de Águas Interiores, Florestas e Fauna Bravia, em Lilongwe, Malawi.
- Turismo, em Port Louis, Maurícias.
- Comissão de Transportes e Comunicações da África Austral, em Maputo, Moçambique.
- Pescas Oceânicas, em Windhoek, Namíbia.
- Minas, em Lusaka, Zâmbia.
- Centro de Controlo das Secas, em Harare, Zimbabwe.
- Segurança Alimentar, em Harare, Zimbabwe.
Política e Estratégia da SADC para o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável
Em Agosto de 1996, foi aprovada a Política e Estratégia da SADC para o Meio Ambiente
e o Desenvolvimento Sustentável, após um processo de três anos de negociações
coordenadas pelo ELMS e envolvendo várias partes interessadas em diferentes países da
SADC. Os principais alvos de uma política e estratégia regionais para o meio ambiente
são:
- Proteger e melhorar o estado de saúde, o meio ambiente e a vida das populações da
África Austral, com prioridade para a maioria pobre.
- Preservar a herança natural, a biodiversidade e os ecossistemas de suporte da vida na
África Austral.
- Apoiar o desenvolvimento económico regional numa base de igualdade e sustentável, para
o benefício das gerações presentes e futuras.
Protocolos da SADC
Para além do protocolo de política e estratégia, foram adoptados vários outros
protocolos da SADC para lidar com diversas questões. Todos estes protocolos possuem
linhas sobre a cooperação regional na Bacia do Zambeze. Talvez o mais essencial de todos
seja o Protocolo da SADC sobre Sistemas de Cursos de Água Partilhados, que foi assinado
em 1995.
A partilha da água através das fronteiras nacionais tornou-se uma das questões mais
críticas da política externa na região da SADC, na qual os países parti- lham, pelo
menos, 15 bacias hidrográficas de rios grandes e pequenos, abrangendo cerca de 70% da
região. A partilha dos recursos aquáticos é tão complexa para as pequenas bacias
hidrográficas, como a do Pungwe, entre o Zimbabwe e Moçambique, como o é para as
grandes, como a do Zambeze, sobre a qual têm interesse comum oito países.
Os cursos de água partilhados são uma fonte potencial de conflitos entre, ou dentro
de, países, normalmente relativos à utilização da água. Para satisfazer as
necessidades da população crescente, da produção de alimentos, da indústria e da
produção de energia, das cidades e da conservação da natureza, existe apenas uma
quantidade finita de água.
Mas, por outro lado, os cursos de água partilhados podem constituir também
instrumentos de criação de oportunidades de fortalecimento da cooperação.
Cooperação aos níveis da OUA e das NU
Os estados da Bacia do Zambeze são signatários de vários acordos ambientais
multilaterais, que influenciam programas nacionais e iniciativas regionais fora do âmbito
dos acordos ambientais da SADC.
Os estados da bacia são membros da Organização de Unidade Africana (OUA), e das
Nações Unidas. No âmbito da OUA, estes países participam em fóruns como a
Conferência Ministerial Africana sobre o Ambiente (AMCEN). O envolvimento da AMCEN na
promoção da cooperação regional em bacias hidrográficas partilhadas é devido ao
reconhecimento de que apesar de existirem em África mais de 50 bacias hidrográficas
internacionais, a maior parte delas não têm acordos internacionais.
Ao longo de quase três décadas, desde a Conferência de Estocolmo sobre o Meio
Ambiente Humano, de 1972, foram adoptados pela comunidade internacional vários
instrumentos legais para promover uma abordagem global de combate a muitos problemas
ambientais. Apesar de metade dos países da Bacia do Zambeze (Angola, Moçambique,
Namíbia e Zimbabwe) não serem independentes na altura e, por isso, não terem
participado na conferência de 1972, duas décadas mais tarde todos os estados da bacia
participaram na Cimeira da Terra em 1992, no Rio de Janeiro. A Cimeira da Terra deu origem
a uma série de acordos internacionais. Entre estes contam-se a Convenção sobre
Biodiversidade, a Convenção-quadro das Nações Unidas sobre as Alterações
Climáticas, a Convenção Internacional para a Luta contra a Desertificação, os
Princípios sobre as Florestas e a Agenda 21.
Estas novas convenções, incluindo a Convenção sobre a Lei de Utilização dos
Cursos de Água Transfronteiriços para Fins que não a Navegação, de 1997, bem como as
adoptadas antes dos anos 90, colocam um desafio à cooperação regional na Bacia do
Zambeze. Estes acordos proporcionam uma base de cooperação e harmonização de leis e
regulamentos necessários à gestão eficaz da bacia.
Desafios futuros
A gestão da Bacia do Zambeze deverá ser alargada para além do rio e do seu meio
ambiente imediato. A cooperação não deverá ser restringida ao mandato imediato de
instituições como a Zambezi River Authority, mas deverá incluir outras, mesmo que se
encontrem, por exemplo, a 400 quilómetros de Kariba. O que acontece em Luena, a maior
área urbana na parte Angolana da bacia, deverá interessar os políticos de Chinde, no
Delta do Zambeze, em Moçambique.
Existe, por isso, necessidade de uma estrutura de coordenação da bacia como, por
exemplo, uma Zambezi River Authority (ARZ) ou uma Comissão da Bacia do Rio Zambeze
(ZAMCOM) alargadas, tal como recomendado no Protocolo sobre Sistemas de Cursos de Água
Partilhados. Tal estrutura promoveria a pluralidade sectorial, políticas harmonizadas,
estratégias integradas, resolução de conflitos e definição de prioridades. A
cooperação deverá ser multi-sectorial tomando em consideração não apenas a gestão
da água e do meio ambiente, mas também políticas e programas sociais e económicos.
As políticas de população, povoamento e distribuição de pessoas, desenvolvimento
de recursos humanos, alívio da pobreza, educação, urbanização e industrialização e
energia, são igualmente críticas. Uma vez que é aceite que a pobreza constitui um
factor crítico na sobre-exploração de recursos, a falta de cooperação regional no
combate às causas da pobreza limita à partida o sucesso em outras áreas de
cooperação.
Um dos maiores desafios da cooperação regional é o conflito entre instituições
regionais, tanto governamentais como não governamentais, algumas das quais podem ter
interesses concorrenciais. A sobreposição e a concorrência entre instituições é
comum a nível nacional, e ameaçam o fortalecimento da cooperação a nível regional.
Em última instância, o sucesso da cooperação regional dentro da bacia depende do
envolvimento de ONGs, do sector privado e da sociedade civil nas questões de governação
e cooperação, e compromisso político.
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