ENERGIA
Os recursos energéticos encontrados na Bacia do Zambeze incluem recursos
renováveis, como a biomassa e a energia hidroeléctrica, e não renováveis, como o
carvão e o petróleo, bem como tecnologia para novas energias, como a solar e a eólica.
Cerca de 74% das necessidades totais de energia dos oito estados da Bacia do Zambeze
provêm de combustíveis de biomassa, como a lenha, o carvão vegetal e os detritos
vegetais, sendo essa energia utilizada essencialmente em usos domésticos e no
processamento do tabaco. Os combustíveis de biomassa são ainda utilizados na manufactura
de tijolos, na produção de cal, na fumagem de peixe e na secagem do chá e do café.
São várias as razões da utilização excessiva de lenha na bacia:
- Uma vez que as florestas são um recurso renovável, podem ser perpetuamente exploradas,
desde que adequadamente geridas. Além do mais, a lenha é, por enquanto, a fonte de
energia mais fiável e disponível para muitos agregados familiares.
- A lenha é uma fonte indígena de energia. Não é necessária moeda estrangeira para a
adquirir.
- Na maior parte das áreas, a lenha não é comprada, apenas é recolhida pelos agregados
familiares rurais. Este "recurso gratuito" permite aos agregados pobres
canalizarem o seu rendimento para outras necessidades.
- Em alguns países, particularmente naqueles em que a utilização de carvão vegetal é
dominante, a comercialização deste constitui uma importante fonte de rendimento para
algumas famílias. Na Zâmbia, por exemplo, a indústria do carvão vegetal gera
anualmente cerca de trinta milhões de dólares norte-americanos. Cerca de 60.000 pessoas
dependem directamente deste no que se refere ao grosso do seu rendimento.
Em Angola, não foi realizado nenhum inventário energético desde que terminou o
colonialismo. O Botswana tem abundantes recursos energéticos sob a forma de madeira.
Embora em algumas áreas a madeira seja recolhida a taxas insustentáveis, ela é
excedentária no país como um todo. Apenas são reco-lhidas 1,8 milhões de toneladas, de
um incremento anual de biomassa da ordem dos 50 milhões de toneladas. No Malawi, 90% da
energia total fornecida por biomassa é sob a forma de madeira. Juntos, a biomassa e o
biogás totalizam cerca de 92% de toda a energia consumida.
Cerca de 80% da população de Moçambique habita em áreas rurais e depende da lenha
para cozinhar, bem como para aquecer água para uso doméstico, para aquecimento da
habitação e para a secagem de produtos alimentares. Mais de 90% das famílias utilizam
exclusivamente lenha para cozinhar, enquanto menos de 10% recorrem ao carvão.
Na Namíbia, faz-se o desbravamento indiscriminado de árvores em reservas florestais
para a obtenção de lenha, sem "se dar tempo de regeneração". Isto observa-se
particularmente na região norte do país. A condição predominantemente desértica
agrava também este problema. Os agregados familiares rurais utilizam lenha para
satisfazer até 90% das suas necessidades de energia, o que resulta num intenso
desflorestamento.
Na Tanzânia são consumidos cerca de 25 milhões de metros cúbicos de combustíveis
provenientes da madeira, cerca de 97% dos quais em forma de lenha, nas áreas rurais. Tal
como em outros países da bacia, os níveis de consumo excedem as taxas de regeneração e
de plantio. O carvão vegetal é também muito utilizado, em especial nas áreas urbanas,
onde 70% da população recorre a este para obter energia. Estima-se que as matas e
florestas cobrem cerca de 100.000 quilómetros quadrados na Zâmbia, o que constitui cerca
de dois terços ou 66% da área total de terra do país.
A madeira é também a maior fonte de energia no Zimbabwe, fornecendo cerca de 57% da
energia total consumida no país. São consumidos anualmente mais de 6 milhões de
toneladas de madeira, abastecendo principalmente as comunidades rurais e os pobres das
zonas urbanas.
Electricidade
A electricidade é de origem hídrica ou térmica, o que a torna, respectivamente,
renovável ou não renovável. O poder hidroeléctrico do Rio Zambeze está estimado em
20.000 megawatts (MW), dos quais foram já aproveitados 4.684 MW. Foram também já
identificadas na bacia as centrais hidroeléctricas potenciais, com uma capacidade de
instalação total de mais de 13.000 MW. A Bacia do Zambeze é uma fonte de energia
hidroeléctrica na região da África Austral. Em toda a África Austral, é ultrapassada
apenas pelo Rio Congo, que detêm o maior recurso hídrico de toda a África. O potencial
hídrico do Rio Zambeze e dos seus afluentes está já a ser explorado pela maior parte
dos países da bacia, como Malawi, Moçambique, Zâmbia e Zimbabwe. Em Angola, Malawi,
Moçambique, Zâmbia e Zimbabwe, existem 42 locais potenciais de aproveitamento
hidroeléctrico na Bacia do Zambeze (12.892 MW). Os outros países da região da SADC,
localizados fora da bacia, poderão beneficiar da importação directa de electricidade a
partir das unidades de produção do rio e através da SADC Power Pool (SAPP). A África
do Sul é um exemplo, importando electricidade da Barragem de Cahora Bassa, em
Moçambique.
Não existem unidades hidroeléctricas na Bacia do Zambeze em Angola, Botswana ou
Namíbia. Dos 4.620 MW disponíveis, cerca de 5% estão no Malawi, 45% em Moçambique, 36%
na Zâmbia e 14% no Zimbabwe. A unidade hidroeléctrica de Cahora Bassa, que tem uma
capacidade de 2.075 MW, é a maior da SADC, seguida pela de Inga, na República
Democrática do Congo, com 1.771 MW.
Foram identificadas na bacia cerca de 40 possíveis unidades novas de produção
hidroeléctrica, com uma capacidade de instalação total de mais de 13.000 MW. Cerca de
85% desta capacidade está localizada no Rio Zambeze propriamente dito, pertencendo a
restante aos seus afluentes. Perto de metade do potencial delineado está localizado em
Moçambique, cerca de 25% na Zâmbia e cerca de 20% no Zimbabwe. Um pouco mais de 5% deste
potencial está dividido entre Angola, Malawi e Tanzânia.
Na região, são utilizados carvão e metano de carvão em leito para gerar energia
térmica, o que contêm abundantes reservas de carvão.
As centrais térmicas mais importantes da bacia estão localizadas no Zimbabwe. A
Hwange Power Station tem uma capacidade de 920 MW. Outras três centrais térmicas estão
localizadas em Harare (135 MW), Bulawayo (120 MW) e Munyati (120 MW). Uma outra central
térmica, na mina de carvão de Sengwa, com uma capacidade de 1.200 MW, atingiu já um
adian-tado estado de desenvolvimento, envolvendo principalmente produtores privados de
energia. Dispersas pelo país encontram-se também várias centrais de gasóleo, com uma
capacidade total de cerca de cerca de 4 MW. As centrais térmicas no Malawi incluem a
turbina a gás de Chichiri (15 MW), em Blantyre, unidades a gasóleo em Lilongwe (4,3 MW)
e Mzuzu (1,8 MW), todas alimentando a rede nacional. As unidades de turbina a gasóleo e a
gás servem como fontes de fornecimento de energia de reserva. Chitipa é abastecida por
uma unidade a gasóleo externa à rede, com uma capacidade de 300 MW.
As reservas de carvão dentro da bacia são principalmente utilizadas para a produção
de energia térmica, uso doméstico (cozinha e aquecimento), na indústria, ( fundições
e manufactura de produtos químicos), no comércio (secagem do tabaco) e na tracção
ferroviária. A produção total de carvão na região da SADC aumentou de 212, 24
milhões de toneladas, em 1996, para 223,98 toneladas, em 1997.
A energia solar proporciona uma fonte não polui-dora de energia e pode melhorar o
nível de vida das comunidades que, de outra forma, não têm acesso à rede de
distribuição de electricidade. O custo das tecnologias de aproveitamento da energia
solar tem vindo a entravar a sua mais rápida disseminação mas, ao longo das últimas
décadas, os preços têm vindo a baixar. Os esforços internacionais para tornar os
produtos solares mais baratos têm também contribuído para levar programas até às
comunidades pobres. Um exemplo é o projecto Solar Global Environmental Facility (GEF),
que decorreu no Zimbabwe entre 1992 e 1997, tendo instalado mais de 10.000 sistemas.
Alguns impactos do sector da
energia no meio ambiente
A produção e utilização de todas as formas de energia têm associadas
consequências ambientais. A combustão de lenha, por exemplo, contribui para o
desflorestamento, um dos factores que conduz à erosão dos solos, ao assoreamento e, em
última análise, à degradação da terra. Além disso, a destruição das florestas
reduz a capacidade da região de refrear as alterações climáticas, uma vez que as
florestas actuam como colectores de dióxido de carbono.
Tanto quanto existe a necessidade de electricidade gerada por centrais
hidroeléctricas, a construção de barragens pode ter impactos negativos alargados
sociais e ambientais. Entre estes contam-se o deslocamento de pessoas e animais, o
desaparecimento de património importante, de plantas e de animais. Entre outros impactos
incluem-se o esgotamento de habitats de zona húmida e da vida aquática, o aumento de
doenças transmitidas pela água, a sedimentação, o assoreamento e as cheias induzidas
por assoreamento. No Lago Kariba, por exemplo, foram deslocadas mais de 57.000 pessoas,
enquanto em Cahora Bassa, em Moçambique, cerca de 25.000 pessoas tiveram que ser
realojadas.
A mineração, o processamento, o armazenamento e a utilização de combustíveis
fósseis têm efeitos negativos no meio ambiente. A produção térmica de energia, por
exemplo, tem muitos impactos ambientais negativos. Estes vão desde a descarga de carvão
nas carvoarias e a emissão de gases provenientes da combustão do carvão e do gasóleo
até à poluição subterrânea. Afectam ainda a qualidade do ar, da superfície e a
utilização da terra.
Em África como um todo, o sector da energia é responsável por um terço das
emissões de gases de efeito de estufa. As emissões estimadas de dióxido de carbono para
os estados da Bacia do Zambeze totalizou cerca de 23,14 milhões de toneladas, em 1995
(não havia informação disponível referente à Namíbia). Este número parece pequeno
quando comparado com a África do Sul, que emitiu 305,81 milhões de toneladas em 1995, e
com os EUA, que emitiram 5.468,56 milhões de toneladas, mas as emissões acumuladas ao
nível global terão impacto em todas as regiões, incluindo os estados da SADC.
Embora a magnitude dos riscos da poluição atmosférica para o meio ambiente regional
seje, em grande medida, desconhecida, acredita-se, porém, que a vegetação, os solos e a
água estejam a sofrer o impacto dos efeitos directos dos poluentes gasosos e da chuva
ácida, que se forma quando o dióxido de enxofre se mistura com a água das chuvas. A
recolha de dados sobre as emissões e os seus impactos não está ainda bem desenvolvida
em toda a região, mas 89% da electricidade produzida na SADC vem do carvão, contribuindo
anualmente com milhares de toneladas de sulfatos para a atmosfera que, mais tarde conduzem
à chuva ácida nos países da bacia.
Outro problema relacionado com a utilização de fontes de energia não renováveis
são os fumos do escape dos veículos propulsionados por combustíveis fósseis. O
desenvolvimento económico tem tido impacto sobre o estilo de vida, em particular nas
zonas urbanas, onde muitas pessoas aspiram ter o seu próprio veículo. O Zimbabwe, por
exemplo, tem mais de 500.000 veículos a circular nas suas estradas. A utilização
crescente de veículos a motor está a aumentar a emissão de gases de efeito de estufa
como o metano, o ozono, o monóxido de carbono, óxidos de azoto e, o mais importante de
todos, o dióxido de carbono.
Políticas energéticas
Dando reconhecimento à importância da energia como condição básica para o
desenvolvimento sócio-económico, os políticos da SADC têm produzido diversas propostas
e planos sobre como desenvolver e utilizar as vastas fontes de energia existentes, para a
promoção do processo de industrialização, com vista a alcançar o desenvolvimento
económico e aumentar o nível de vida das pessoas. Contudo, as várias institui-ções
regionais e sub-regionais não obtiveram ainda sucesso na implantação de políticas e
estratégias energéticas coordenadas e coerentes.
Um exemplo é o Protocolo sobre a Energia da SADC, que constitui uma iniciativa
regional que promove a cooperação em todo o sector da energia. A implementação
efectiva do protocolo não foi ainda efectuada.
Todavia, o esforço de cooperação mais notável e pragmático na região da África
Austral é a Southern African Power Pool (SAPP). Todos os países da SADC acordaram em
cooperar em projectos e comercialização da electricidade. O comércio de electricidade
na região, porém, existe desde os anos 50, altura em que foram estabelecidas
interligações entre países como a Zâmbia, o Zimbabwe e a RDC.
A conservação é, possivelmente, o recurso energético mais eficiente hoje em dia na
região. Há indicações claras da existência de possibilidades subs-tanciais de
conservar energia através de uma melhor economia doméstica e de equipamentos mais
eficientes em todos os sectores. Evitando os métodos esbanjadores de energia dos países
anteriormente industrializados, os países da Bacia do Zambeze podem colher benefícios
tanto económicos como ambientais. Tal requer, no entanto, programas cuidadosamente
elaborados e abrangentes, que promovam a conservação com eficiência de custos e
eficácia.
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