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Sumário


Apesar do seu papel preponderante na economia, no combate à pobreza, na segurança alimentar e nos problemas ambientais, a agricultura dos estados da bacia enfrenta ainda o subdesenvolvimento e a estagnação devido a más políticas macroeconómicas.

 

 

As instituições locais que regulam e gerem os recursos colapsaram, originando regimes abertos de acesso, declínio da resistência dos ecossistemas e redução da capacidade de recuperação após uma seca.

 

 

Embora a intensificação da agricultura seje necessária para aliviar a pressão sobre os recursos naturais, esta tem que ser baseada na tecnologia e nos sistemas de cultivo adequados que reformem os direitos de propriedade e garantam e fortaleçam os direitos das comunidades sobre os terrenos agrícolas e os recursos de propriedade comum.
Estado do Ambiente na
Bacia do Zambeze
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AGRICULTURA

A agricultura contribui, em média, com cerca de 34% para o Produto Interno Bruto (PIB) da África Austral, emprega 80% da mão-de-obra total e contribui com cerca de 26% para a obtenção de moeda estrangeira.

Existem 15 zonas agro-climatológicas na bacia, que diferem na precipitação e nas estações de colheita. O milho, o chá, o tabaco, o café, o açúcar, o trigo e o algodão são algumas das principais culturas produzidas pela agricultura comercial nos estados da bacia. O chá, o tabaco, o café, o açúcar e o trigo são normalmente produzidos em regadio mas, em alguns casos, estas culturas são produzidas em regime de sequeiro.

O Malawi, a Zâmbia e o Zimbabwe tem um total de 86% dos 520 mil quilómetros quadrados que se estima são cultivados anualmente (em regadio e sequeiro) na bacia do Zambeze. Dentro da bacia, o Malawi tem 90%, a Zâmbia 76% e o Zimbabwe 56% da área total cultivada no país.

Apesar do seu papel preponderante na economia, no combate à pobreza, na segurança alimentar e nos problemas ambientais, a agricultura dos estados da bacia enfrenta ainda o subdesenvolvimento e a estagnação devido a más políticas macro-económicas. O "desequilíbrio produção alimentar/população" nos estados da bacia exige que o fornecimento de alimentos cresça 4% ou 5% ao ano, uma taxa que a maior parte dos países não tem conseguido alcançar. Nas últimas décadas, os conflitos civis e a seca têm também exacerbado os níveis de insegurança alimentar na bacia.

O mau ambiente macro-económico, a crise da dívida e a deterioração das condições de comercialização que caracterizam a maior parte dos países da bacia, estão a aumentar os impostos sobre o sector e a tornar mais difícil o seu maior crescimento e a comercialização da agricultura de pequena escala.

Impacto da agricultura no meio ambiente

A degradação do meio ambiente é um testemunho visual da autodestruição e do empobrecimento do sector agrícola. O "desequilíbrio produção alimentar/população" na bacia está a conduzir ao aumento da produção através da abertura de novas terras, por vezes marginais, bem como à intensificação da produção agrícola. Sem os rendimentos agrícolas suficientes para assegurar o seu sustento, os camponeses estão a expandir-se para áreas ambientalmente frágeis. Os tempos de pousio diminuíram drasticamente, normalmente não acompanhados por uma melhor gestão da fertilidade, resultando em baixos rendimentos. Por sua vez, esta situação faz aumentar o povoamento por ervas, a acidez do solo e a erosão.

No Botswana, por exemplo, a maior parte da terra é dedicada ao gado e a pastagens, enquanto só metade da população rural possui gado. A degradação da terra devido ao excesso de pastagem e às secas prolongadas é um grave problema, e as tentativas para a controlar têm, até ao presente, sido bastante mal sucedidas.

Um dos problemas ambientais mais graves da agricultura na bacia é o da má gestão dos recursos nos sistemas agrícolas extensivos. A agricultura de sequeiro tem resultado na conversão da floresta primordial em terrenos agrícolas, em perda de biodiversidade, em alterações micro-climáticas, em exposição de solos frágeis, na erosão dos solos e no alagamento de terras baixas, degradação das zonas protegidas de águas confinadas, em períodos mais curtos de pousio com perda de nutrientes do solo, aumentando a pressão sobre os recursos de propriedade comum, como zonas florestais e áreas de pastagem. As instituições locais que regulam e gerem os recursos colapsaram, originando regimes abertos de acesso, declínio da resistência dos ecossistemas e redução da capacidade de recuperação após uma seca.

A degradação dos recursos como resultado da pobreza e da pressão populacional atingiu níveis preocupantes. O Malawi é um dos países com uma população em crescimento rápido e grave escassez de terra, onde o cultivo alastrou para terras marginais e encostas íngremes. As taxas de erosão dos solos aumentaram nas regiões centro e sul do país, enquanto os pousios mais curtos e as monoculturas reduziram a fertilidade dos solos e a produtividade agrícola nas áreas densamente povoadas.

A competição por terra e recursos hídricos entre os sectores e os sistemas de produção irá intensificar-se. O abastecimento em alimentos na bacia depende da produção de cereais em regadio, que se espera venha a crescer apesar dos elevados custos de irrigação. A procura crescente de água para uso de regadio, industrial e doméstico é devida à maior competição em torno da água, que está a aumentar o preço desta para níveis superiores aos possíveis, para obtenção de lucros na produção de alimentos essenciais.

O aumento da concentração de sais nas áreas irrigadas, a contaminação por fertilizantes e pesticidas das águas superficiais e subterrâneas, bem como as descargas de efluentes orgânicos, são algumas das ameaças ambientais com origem na agricultura. Na bacia, os impactos devidos a fertilizantes, pesticidas e herbicidas resulta, na sua maior parte, da utilização excessiva e da má aplicação.

No Zimbabwe, por exemplo, os agricultores importam produtos químicos banidos ou de aplicação rigo-rosamente controlada, citados no Código de Conduta da Autorização mediante Informação Prévia, adoptado pela Food and Agriculture Organisation (FAO), em 1985. O governo ainda recorre à utilização de DDT para erradicar a mosca tsé-tsé. Como exemplo, em 1987 adquiriu 10 toneladas para controlar a peste bubónica na Província de Matabeleland do Norte.

As actividades agrícolas contribuem significativamente para as fontes antropogénicas de gases que provocam o efeito de estufa que se acredita estarem na base das alterações climáticas. A queima de biomassa das florestas e os fogos das savanas contribuem com cerca de 30% do dióxido de carbono total emitido pela actividade humana. Uma expansão ainda maior do sector agrícola pode conduzir ao desbravamento de ainda mais florestas e à queima de árvores e do estrato arbustivo, que libertarão gases de efeito de estufa para a atmosfera. O metano proveniente do gado e dos campos alagados de arroz, bem como os óxidos de azoto provenientes dos fertilizantes são outras fontes de gases de efeito de estufa. Contudo, em termos do aquecimento global, a contribuição por parte dos paí- ses da bacia é negligenciável.

Na Zâmbia, o desflorestamento devido à agricultura é um problema ambiental chave. São consumidos anualmente sete milhões de metros cúbicos de lenha e as florestas indígenas são a principal fonte de madeira serrada, de barrotes e de toros para minas. A cultivo de rotação resultou no desbravamento de terras para a agricultura e na redução da cobertura de espécies indígenas.

A criação de gado tem dois impactos principais na qualidade da água, designadamente o enriquecimento em nutrientes e a sedimentação de rios causada pela degradação dos solos devida ao excesso de pastagem por causa dum excesso de gado. Nas áreas comunais dos países da bacia tem vindo a ser observado um aumento na concentração de sedimentos nas águas superficiais e o assoreamento de albufeiras, canais e rios. Os bovinos e os caprinos são o gado dominante, cuja pressão populacional leva a que sejam apascentados nas colinas ou nas zonas húmidas inadequadas para a agricultura. Os caprinos herbívoros são mais eficientes do que os bovinos, e podem causar um grave impacto na vegetação se os seus números forem demasiadamente elevados.

Os países da bacia devem garantir que a gestão dos recursos naturais contribua para a produtividade e o rendimento melhorados, garantindo que a agricultura não degrade a diversidade e a riqueza desses recursos naturais. É importante:

  • Mantêr e aumentar a produtividade da terra e a utilização sustentável de água, para o benefício das populações da bacia;
  • Garantir a conservação dos recursos naturais principalmente para uma produção sustentável; e
  • Mantêr e melhorar a qualidade do meio ambiente na bacia.

É necessária uma política agrícola coordenada na bacia, para combater a fome, a pobreza e a degradação do meio ambiente.

A SADC foi pioneira na cooperação regional relativamente à segurança alimentar, à investigação, à produção animal e controlo de doenças, às pescas, às florestas e fauna bravia. Esta cooperação é coordenada por várias unidades, como o Sector de Gestão Ambiental e da Terra da SADC, a Alimentação, Agricultura e Recursos Naturais, programas como o Sorghum and Millet Improvement Programme (SMIP), e instituições especializadas como o International Crops Research Institute for the Semi-Arid Tropics (ICRISAT ).

É importante que os estados membros elaborem acordos que melhorem o comércio agrícola e a livre movimentação dos recursos da bacia. Apesar de os estados atravessarem períodos de escassez e de excedentes de produtos como o milho, a carne de vaca, as hortícolas e os alimentos processados, o comércio no âmbito da bacia é reduzido. Deveriam ser adoptadas protocolos comuns de política agrícola, ambiental, produtos químicos, certificação de sementes e de outras áreas. A inexistência de uma política agrícola abrangente, associada à falta de capacidade local e ao excesso da dependência em peritos estrangeiros, constitui fundamento para a criação e o fortalecimento de instituições regionais que façam avançar a agricultura como passo essencial para uma industrialização.

Os políticos deveriam ainda ter consciência dos perigos da intensificação agrícola e deveriam ser cautelosos em relação aos subsídios para pesticidas, sistemas de gestão de irrigação ineficientes e à subvalo-rização do preço da água, que incentiva o desperdício. Embora a intensificação da agricultura seje necessária para aliviar a pressão sobre os recursos naturais, esta tem que ser baseada na tecnologia e nos sistemas de cultivo adequados que reformem os direitos de propriedade e garantam e fortaleçam os direitos das comunidades sobre os terrenos agrícolas e os recursos de propriedade comum. Deverão ser estabelecidas organizações comunitárias de gestão dos recursos de propriedade comum, que controlem a erosão dos solos e programas de conservação da água ou, nos casos em que elas existam, deveria ser-lhes dado mais poder.

A segurança alimentar regional nos países da bacia pode ser melhorada com a integração dos transportes e da gestão da ajuda alimentar, da troca de informação e dos avisos prévios relativamente aos fenómenos climáticos, e da gestão, mitigação e prevenção das secas.

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