A SEGUNDA metade de 2005 é abundante em
eventos e processos de crucial importância para a
agenda de desenvolvimento da África Austral.
Como outras regiões em desenvolvimento, a
África Austral tem que lidar, cada vez mais, com a
paradoxal questão de escolher entre ajuda ao
desenvolvimento ou investimento e comércio. Mas
a realidade do desenvolvimento e as lições da
História sugerem que opções fáceis ou soluções
rápidas têm poucas probabilidades de resolver os
perenes desafios da pobreza.
Em recentes auto-avaliações, a SADC
confirmou a realidade que confronta, não só esta
região, mas também todo o mundo em
desenvolvimento, de que são necessárias grandes intervenções multifacetadas para se atingir os
Objectivos de Desenvolvimento do Milénio
(ODMs).
Assim, a Cimeira Económica de África, que teve
lugar na Cidade do Cabo, a Cimeira da União
Africana, na Líbia, a Cimeira do G8 na Escócia, são
alguns dos grandes eventos que a África Austral
olha com especial interesse. Igualmente
importante será a Cimeira das Bodas de Prata da
SADC no Botswana e a Cimeira de Revisão do
Milénio, das Nações Unidas, em Nova Iorque.
Estes eventos, embora independentes uns dos
outros na sua apropriação, estão interligados e
complementam-se de muitas maneiras e,
sobretudo, os seus resultados são de um
fundamental significado para os milhões de
cidadãos da África Austral. A Cimeira Económica Africana,
organizada pelo Fórum Económico
Mundial, baseado na Suíça, tem-se
tornado o ponto de encontro anual
de líderes de negócios, da política, e
da sociedade civil.
A cimeira deste
ano procurou “reforçar a mensagem
de que África está aberta ao
negócio”, e sublinhou o “papel
chave do sector privado como o
motor da regeneração de África”.
Enquanto procura consolidar um
ambiente político estável e favorável
aos negócios no continente, a
Cimeira da União Africana deverá
também rever o seu programa
económico de três anos, a Nova
Parceria para o Desenvolvimento de
África (NEPAD).
Levantam-se preocupações de
que o programa da NEPAD tem sido
lento a começar, principalmente
devido à falta de recursos
financeiros, apesar de ter sido
recebido com entusiasmo pela
comunidade internacional quando
foi lançado.
E mais, o secretariado da NEPAD
revelou, durante a Cimeira
Económica Africana em Maputo no
ano passado, que o sector privado
mostrou pouco interesse nos seus 20
p rojectos prioritários de
infraestruturas. E o seu orçamento
anual de 64 milhões de dólare s
americanos necessários para
financiar todo o projecto da NEPAD
também não está a ser
disponibilizado.
Esta é, em parte, a razão porque
África vai seguir o processo com
especial interesse na Cimeira do G8 de
Gleneagles. O Reino Unido, a França,
a Alemanha, os Estados Unidos, o
Japão, a Itália, e o Canadá formam o
Grupo dos Sete (G7) e, com a Rússia, o
Grupo dos Oito (G8) – Os países
financeiramente mais poderosos do
mundo.
O Reino Unido detém
presentemente a presidência rotativa
do G8, e através da Comissão para
África, o Primeiro Ministro Tony
Blair prometeu priorizar o
continente, fazendo da África
um dos dois temas chave da
Cimeira de Gleneagles.
Não há dúvida que é
necessária uma acção mais
resoluta e o cumprimento
das promessas feitas se
quisermos que África,
com as parcerias existentes, atinja os seus objectivos
de desenvolvimento.
Para a SADC as metas do Plano
Regional de Desenvolvimento
Estratégico Indicativo (RISDP) não
podem estar dissociados dos
objectivos da NEPAD e dos
Objectivos do Milénio, que
constituem um conjunto de objectivos
de desenvolvimento que os líderes
mundiais assinaram na Cimeira do
Milénio da ONU em 2000.
Como diz o secretário executivo
da NEPAD, Prof. Wiseman Nkuhlu,
“A NEPAD será julgada pelo seu
progresso em relação aos Objectivos
do Milénio”, bem como o RISDP.
A Cimeira de Revisão do Milénio
vai avaliar os progressos durante os
últimos cinco anos e
presumivelmente recomendar que
medidas realísticas serão necessárias
para se atingir as metas do Milénio,
incluindo a redução da pobreza para
metade até 2015.
O progresso até ao presente tem
sido lento, e o papel crucial do G8 de
conceder apoio ao desenvolvimento
é de importância fundamental para
se atingir os objectivos do RISDP, da
NEPAD e do Milénio.
Assim, o “apelo à acção”, da
Cimeira Económica Africana, é para
todo o sector privado, a sociedade
civil e os governos, bem como para a
SADC, para África e para o G8.
Para a África atingir os
Objectivos do Milénio, diz o Prof.
Nkuhlu, “significa um
desenvolvimento económico numa
escala sem precedentes”.
A Assistência Oficial ao
Desenvolvimento (ODA) não atingiu
a meta de 0,7 por cento do Produto
Interno Bruto estabelecido pela ONU
e acordado na Cimeira da Terra no
Brazil há uma década.
De acordo com a Organização
para a Cooperação Económica e
Desenvolvimento (OECD), em 2004
os Estados Unidos continuaram a ser
o maior doador de ajuda em termos de volume, seguindo-se o Japão, a
França, o Reino Unido e a Alemanha.
A Dinamarca, o Luxemburgo, os
Países Baixos, a Noruega e a Suécia
foram os únicos que ultrapassaram a
meta de 0,7 por cento do seu PIB.
A OECD diz que enquanto que a
assistência oficial aos países em
desenvolvimento aumentou para
78,6 biliões de dólares norteamericanos
em 2004, cifra jamais
antes atingida, vários factore s
contribuíram para isso. Isso incluíu
mais ajuda ao Afeganistão e Iraque,
mas tristemente pouca para a África.
Para a agenda da erradicação da
pobreza da África Austral, a ajuda de
desenvolvimento é tão importante
quanto o investimento e comércio. É
por esse motivo porque iniciativas tais
como a Cimeira Económica Africana,
que desenvolveu um gosto pela
região da SADC, são de uma
importância crucial.
Ao longo dos anos, a Cimeira
Económica Africana foi crescendo em
estatura na medida em que constitui a
plataforma para os intervenientes
avaliarem oportunidades de negócios
que o continente oferece ao mesmo
tempo que criticam os
constrangimentos das políticas que
emperram o comércio e o
investimento.
A região tem em abundância
exemplos de parcerias bem sucedidas
nos sectores público e privado, tão
bem promovidas pela cimeira
económica – O Corredor do Maputo
que alberga, entre outros, o projecto
da fundição de alumínio da Mozal), a
auto-estrada da Trans Kalahari, e
muitos mais.
Mas talvez o menos explorado potencial da África Austral são os
seus abundantes recursos naturais,
que incluem uma vasta gama de
minerais. As estatísticas da SADC
mostram que a mineração continua
a ser a base da maior parte das
economias da região austral de
África, contribuindo com 60 por
cento das receitas em moeda
externa, 10 por cento do Produto
Interno Bruto (PIB), e 5 por cento de
emprego.
Nove dos 13 estados membros da
SADC são considerados “estados
mineiros”.
Metais chave e minerais destes
países incluem o asbetos, carvão,
cobalto, cobre, crómio, diamantes,
ouro, níquel, platina, vanádio e
zinco.
Contudo, com a natureza volátil
do preço dos minerais a nível
mundial, o grosso do fluxo do
Investimento Directo Estrangeiro
(IDE) tem sido para os países
produtores de petróleo na região –
Angola e África do Sul.
Enquanto o IDE é bom para o
crescimento e desenvolvimento,
uma precaução especial deve ser
para garantir que não seja
simplesmente uma “extracção da
riqueza e pouco mais”, para usar as
palavras do Ministro sul-africano
das Finanças, Trevor Manuel. Este
assunto é bastante sensível no sector
mineiro, daí a importância de
enfatizar a beneficiação do sector
mineiro.
Do mesmo modo, o acesso aos
mercados mundiais sem a devida
ênfase na expansão industrial no
país e uma maior circulação
comercial intra-regional tal como
preconizado pela Área de Comércio
Livre da SADC é menos provável
que ajude a região a atingir o seu
RISDP e outras metas de
desenvolvimento.
Resumindo, ajuda, investimento
e comércio são todos elementos
necessários da receita que a África
Austral necessita para atingir com
sucesso os seus grandes objectivos
de desenvolvimento estabelecidos
no contexto do RISDP, NEPAD e Objectivos do Milénio (OM).