Mozambique
Crise de valores e a missão educadora da escola - Caixa 5.1 Capítulo 5 Casa

Os comportamentos humanos são, em primeira instância, condicionados e moldados por factores de ordem sóciohistórica. Nesse sentido, pode dizer que o ser humano é educado, fundamentalmente, pelas "circunstâncias" (sociais, culturais, económicas, políticas) que o rodeiam. Através da educação, no seu sentido mais amplo, os indivíduos se apropriam e interiorizam os valores que sustentam a sociedade. Nesse sentido, toda a vida social, nas suas diferentes manifestações e práticas, é um espaço educativo ou socializador, criando múltiplos referenciais que servem de orientação à acção dos indivíduos.

Na sociedade moçambicana existe a ideia generalizada de que se vive uma crise ou "inversão" de valores, que se expressa em comportamentos colectivos ou individuais, cujos referenciais não se adequam aos padrões de comportamento que a sociedade tinha estabelecido num passado não muito distante.

Apesar de serem cada vez mais diversificados os espaços de socialização das crianças e jovens, retirando em parte a preponderância que outrora tinham a família e a escola, a sociedade moçambicana continua a atribuir a essas instituições a maior responsabilidade pela educação das novas gerações.

Como consequência disto, muitos responsabilizam a família e, particularmente, a escola pela actual "crise" de valores. Sem dúvida, tanto a família como a escola desempenham, para bem ou mal, um papel importante na modelação dos comportamentos dos indivíduos. É preciso reconhecer, contudo, que ambas as instituições reproduzem os valores sociais dominantes. Por outro lado, é importante observar que estes não são os únicos espaços de socialização de crianças e jovens e, portanto, não podem, em última instância, ser os únicos responsáveis pela "crise" de valores.

A sociedade tem razão quando denuncia o facto de a maioria das escolas moçambicanas terem descurado a sua tarefa educadora, limitando-se à instrução. É preciso que as escolas reassumam a sua nobre missão de educar. Mas o país de hoje está num processo de grandes mudanças que têm afectado, profundamente, os referenciais ético-morais da sociedade, criando um clima de incerteza sobre o que deve ser ensinado às novas gerações. Este estado de incerteza explica, em parte, que as escolas e até as próprias famílias, se tenham demitido da sua tarefa educadora.

A retomada pelas escolas da educação ético-moral passa pela clarificação e definição de um sistema de valores amplamente partilhado pelas múltiplas diversidades sociais e culturais que integram a sociedade moçambicana. E, ao mesmo tempo, exige a aceitação social do princípio da tolerância, dado o carácter plural da sociedade moçambicana. O grande desafio que se coloca às escolas prende-se com como inculcar valores. Porque educar em valores não é doutrinar, não é tratar o destinatário da educação como se fosse mero executor de normas que se lhe impõem. A prática da educação ético-moral deve assumir o princípio da argumentação, isto é, explicitar a razão de ser das regras e normas sociais. Assim, a criança e o jovem devem ser colocados em situações de aprendizagem onde possam identificar o bem ou o mal, o justo ou injusto, o honesto ou desonesto.

A educação ético-moral, por outro lado, exige do educador o respeito pela liberdade do educando e a paciência, necessários ao amadurecimento da sua responsabilidade. O educador deve saber organizar ambientes propícios para que os educandos aprendam a construir o seu raciocínio, a defender e argumentar, racionalmente, os seus pontos de vista e de acção. Importa criar ambientes de aprendizagem onde os educandos se sintam responsáveis, isto é, capazes de dar conta dos seus actos. Ser-se responsável é uma condição fundamental da autonomia própria do ser humano.

Desenvolver Casans autenticamente autónomos é o objectivo principal da educação. Como dizia o ex-Director Geral da UNESCO, Frederico Mayor, hoje em dia não se pode conciliar a educação com docilidade ou submissão. Pelo contrário, a educação deve forjar o carácter e o intelecto do ser humano, dotando-o de au-tonomia suficiente para que consiga raciocinar e decidir com a maior liberdade possível, e, assim, alcançar a ‘soberania pessoal’, a mais relevante das soberanias. Educar para a autonomia pessoal tornou-se hoje mais imperiosa do que nunca, porque vivemos num tempo e mundo fluídos, onde predominam incertezas múlti-plas e poucas certezas.

Por outro lado, educar em valores implica um compromisso social e escolar com os valores que se propõem. Colocar a justiça, a honestidade, a democracia como valores a serem ensinados, implica que a escola, o educador, a própria sociedade os assumam na prática e os tenham como parte da sua rotina prática e espiritual.

Porque de pouco adiantaria propor a ministração desses valores nas escolas se a prática quotidiana dos adultos os negarem. Por outras palavras, o exemplo é o método mais eficaz da educação em valores: "o exemplo vem de cima", dos pais, dos educadores, dos políticos, das instituições sociais e políticas, dos adultos. Caso contrário, o processo educativo estará assente num pedestal de hipocrisia, incoerência, no "faz de conta", no "faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço". A experiência ensina-nos que esta abordagem não funciona.

Em síntese, o compromisso e a coerência, aliados ao respeito à liberdade do educando, são os prerequisitos para uma educação que tem como objectivo a promoção de valores de justiça, autenticidade, cooperação, respeito pela vida dos outros.

Tendo em conta estes pressupostos, a escola pode e deve voltar a ser uma instituição educadora. Na reforma curricular do ensino actualmente em curso, está a desenvolver-se uma concepção de educação ético-moral que toma em consideração esses pressupostos, exigindo a participação e envolvimento de todos os actores do processo educativo: professores, alunos, pais e as comunidades onde as escolas se situam. O processo reconhece que a tarefa de educar em valores não pode ser da exclusividade dos professores especializados, mas sim de toda a comunidade escolar, devendo ser propiciada em todas as actividades escolares.


| SARDC | Eduardo Mondlane University | UNDP |
© UNDP 2000