|
|||
O sector de educação tem estado a beneficiar de contribuições
substanciais da comunidade internacional para a implementação
dos seus programas. Como em qualquer situação de dependência
em relação a contribuições externas,
a única certeza que se tem é que os níveis
de financiamento não irão permanecer inalteráveis
por muito tempo. Aliás esta tendência já se começou a
manifestar em termos relativos. O peso de donativos no orçamento
global da educação baixou de 63,3% em 1994 para 42,5%
em 1999. Esta redução relativa não resultou,
felizmente, na diminuição dos recursos afectados à
educação porque foi compensada pelo crescimento em
termos absolutos dos valores mobilizados internamente, mercê
do aumento dos recursos gerados pela economia. Contudo, é importante reter o raciocínio articulado
no Capítulo 3. Moçambique despende o equivalente a
2,2% do PIB na educação, o que é relativamente
baixo, quando comparado com outros países que, como Moçambique,
também foram declarados elegíveis à Iniciativa
para os Países Pobres Altamente Endividados (HIPC) do Banco
Mundial e do FMI. Como foi referido anteriormente, a média
nos outros países ronda os 4% do PIB Num país com níveis de privação como
os prevalecentes em Moçambique, todos os sectores são
prioritários pois os recursos alocados raramente cobrem as
necessidades. O valor positivo do indicador referido acima é
que ele sugere que Moçambique ainda dispõe de um amplo
espaço de manobra para aumentar substancialmente o volume
de recursos alocados à educação e diminuir
progressiva e substancialmente a dependência externa no financiamento
do sector. A ajuda internacional é bem vinda, mas a generosidade
e caridade, como diz o velho ditado, começam em casa… Os poucos recursos disponíveis podem ser melhor empregues.
Por exemplo, é indiscutível que mobilizar anualmente
recursos materiais, financeiros e humanos para acomodar mais de
400 mil crianças que repetem as classes por culpa da ineficiência
do sistema é um luxo que o país não pode financiar
eternamente. Por cada carteira ocupada por uma criança repetente
fica uma outra criança privada do direito de acesso á
escola. Por outro lado é imperioso que se instituam mecanismos que
garantam que os recursos atribuídos cheguem ou tenham um
impacto efectivo nas instituições onde se desenrola
e se concretiza o processo de ensino-aprendizagem. A centralização
da gestão administrativa e financeira talvez não seja
a opção mais eficaz para a implementação
dos programas e projectos, porque entre outros aspectos, não
gera a necessária responsabilização daqueles
de quem, em última análise, depende a sua implementação. O alargamento da oferta de oportunidades de educação
vai requerer criatividade na mobilização de recursos
para financiar a expansão da rede. O sector da educação
deverá alargar e aprofundar o diálogo com a sociedade
para encontrar soluções viáveis, exequíveis
e sustentáveis para os problemas de expansão e qualidade,
buscando para o efeito alternativas endógenas que diminuam
os actuais índices de dependência. Daí a necessidade
também de desenvolver e consolidar a capacidade institucional
do sistema em todos os seus níveis. Neste sentido, torna-se imperioso o resgate do slogan 'contar com
as próprias forças' no seu sentido mais genuíno.
Os problemas da educação são moçambicanos
e, por isso, a sua solução depende, essencialmente,
das moçambicanas e moçambicanos. O envolvimento do sector privado e de outros actores sociais como
confissões religiosas, autarquias e iniciativas comunitárias
e locais podem permitir a exploração de sinergias
com o sector público no provimento de oportunidades de acesso
à educação. Experiências de outros países
na criação deste tipo de sinergias incluem o estabelecimento
de subsídios estatais por aluno nas escolas privadas, comunitárias
ou associativas, a construção e entrega de escolas
construídas pelos diversos agentes sociais, ou a gestão
comunitária de unidades públicas, poderiam ser exploradas
com maior dinamismo. Neste processo, é pertinente fazer algumas indagações preliminares. Será que existem incentivos capazes de interessar a participação privada ou comunitária na construção de novas unidades escolares ou na manutenção e gestão de unidades públicas? Haverá um papel reservado às autarquias e outros órgãos locais de estado no provimento de educação? Não haverá, na actual legislação, entraves burocráticos que no seu excesso de zelo acabam por desencorajar o envolvimentos de outros actores sociais? Será que existe a possibilidade de aplicar a Lei do Mecenato às iniciativas que promovam a expansão das oportunidades de educação? Não haverá instâncias em que se colocam exigências, às iniciativas privadas e comunitárias, muito acima ao que se exige do sector público? Não será este um entrave ao alargamento das oportunidades escolares? Estas e outras questões devem merecer a reflexão de todos os que estão empenhados ou têm interesse na educação. |
|||
| | SARDC | Eduardo Mondlane University | UNDP | | |||