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Mais do mesmo não vai balançar
a equação O carácter relativamente 'ruralizado' e 'feminizado' do
analfabetismo denunciado pelos dados analisados neste Relatório
dificilmente pode ser atacado com sucesso enquanto prevalecerem
alguns constrangimentos básicos. Existe, por exemplo, a necessidade
de implementar com vigor e pragmatismo os programas e estratégias
que preconizam a promoção da elevação
dos níveis de acesso das raparigas dos actuais 43% para níveis,
no mínimo, representativos da proporção das
mulheres na população, e garantir a sua permanência
no sistema até à graduação. Os benefícios sociais da educação são
reconhecidos universalmente. No seio de uma população
feminina educada reduzem-se drasticamente os índices de mortalidade
e aumenta substancialmente o nível de consumo dos agregados
familiares que têm uma mulher minimamente instruída.
Reconhece-se que à medida que o nível de escolarização
de uma mulher se eleva, a probabilidade de crianças entre
os 1-5 anos completarem o ciclo de vacinas aumenta, facto que resulta
numa queda relativa da mortalidade infanto-juvenil. Os elevadíssimos
níveis de analfabetismo entre as mulheres prevalecentes em
Moçambique são factores determinantes dos níveis
acentuadas de privação prevalecentes, devendo por
isso ser objecto de correcções urgentes. Os obstáculos representados pela estrutura curricular do
EP2 que, devido às suas exigências em termos de docentes
e recursos, impedem a sua massificação pelas zonas
rurais, acompanhando e/ou complementando o ritmo da expansão
da rede do EP1, terão que ser devidamente equacionados. As campanhas de alfabetização levadas a cabo nos
primeiros anos após a independência foram alvo duma
adesão massiva e tiveram uma contribuição notável
na diminuição dos índices de analfabetismo
na população. Mas o movimento de massificação
de aptidões de leitura e escrita entre a população
adulta não sobreviveu ao embate das crises provocadas pela
guerra, pelo desempenho pobre da economia e do desencanto gerado
pelos conteúdos. As razões do esmorecimento do ímpeto popular que
marcou os momentos iniciais das campanhas foram identificadas nos
processos de avaliação. A utilização
da língua portuguesa como veículo de ensino, em prejuízo
das línguas nacionais, a irrelevância dos conhecimentos
ministrados para a vida prática, a dependência quase
exclusiva no voluntarismo na execução dos programas
e marginalização dos saberes tradicionais figuram
como factores principais da desmotivação. Estes e
outros factores deverão ser objectos de maior aprofundamento
e equacionamento antes de se embarcar em novos exercícios
destinados a regenerar o interesse da população adulta
pela alfabetização. O maior desafio ao sistema é encontrar a fórmula
adequada para insuflar o entusiasmo popular que caracterizou a primeira
experiência das campanhas de alfabetização.
O uso das línguas nacionais pode ser um dos estímulos.
Mas não se pode relegar para título secundário
a necessidade de, para além do respeito das práticas
culturais locais, os conhecimentos ministrados aos adultos terem
uma aplicação prática, imediata e funcional.
Assim as populações não iriam contabilizar
o esforço dedicado à aprendizagem como um custo de
oportunidade, cujos benefícios hipotéticos não
compensam o esforço. A mente adulta tem a particularidade de ser selectiva no processo
de aprendizagem: como resultado os adultos não aprendem tudo
o que lhes é ministro, mas apenas aquilo que a sua racionalidade
dita como uma necessidade aprender. Este processo vai impor à educação a necesssidade
de aprender a dialogar com a sociedade e inspirar-se nas suas práticas
e valores para, em última análise, despertar e incentivar
o interesse comunitário pela participação na
elaboração e implementação de programas
de educação para si e para os seus filhos, e influenciar
a modelação dos conteúdos de acordo com os
seus interesses e prioridades. Esta transformação, que em muitos aspectos já
está a ocorrer, exige dos planificadores e gestores de educação
uma maior flexibilidade, espírito de abertura e uma nova
atitude, particularmente no que diz respeito à tendência
de estabelecer relações hierarquizadas com as comunidades
que caracteriza actualmente o diálogo. O desencanto para com a eficácia do SNE e a sua responsabilização
implícita pela alegada crise de valores que se manifesta
na juventude não devem constituir motivo de desalento para
os quadros do sector. Pelo contrário, esta atitude crítica
reflecte a importância que a sociedade atribui à educação
como instrumento privilegiado para a formação integral
dos indivíduos e do seu papel na promoção de
um desenvolvimento sócio-económico e cultural equilibrado
e são. Contudo, mais do que as boas intenções de alargar
o acesso a todos os cantos do país, há que encarar
os problemas da educação com o realismo e pragmatismo
que ele merece, quanto mais não seja para evitar a sedimentação
de expectativas desajustadas à capacidade de realização
do sector. A intenção de criar condições
para prover todos os seus cidadãos de oportunidades de educação
a todos os níveis, mesmo com o advento da tecnologia, só
pode ser um objectivo realizável a longo prazo. O provimento
de uma educação de qualidade assim como a multiplicação
das oportunidades de aprendizagem, apesar de nobre, é uma
missão difícil, complexa e onerosa. A análise do financiamento da educação no
Capítulo 3 mostra claramente que Moçambique não
dispõe, nem disporá, a médio prazo, dos recursos
materiais e humanos garantir o acesso universal da sua população
jovem aos diferentes níveis de ensino. Cerca de metade dos
recursos despendidos no sector da educação provêm
da ajuda externa. Claro que Moçambique ainda dispõe de algum espaço
de manobra, pois as despesas totais do sector como percentagem do
Produto Interno Bruto (PIB) ainda são relativamente baixas
quando comparadas com outros países nas mesmas condições.
Moçambique despende 2,3% do PIB quando a média nos
países elegíveis ao HIPC é de cerca de 4% do
PIB. A série temporal deste indicador sugere que o país
está a fazer este esforço: as despesas da educação
como percentagem do PIB passaram de 1,6% em 1995 para 2,3% em 1999. Porém, é preciso reconhecer que, mesmo que o país
aumente o volume dos recursos alocados à educação
até atingir os 4% do PIB recomendados, Moçambique
vai continuar a precisar de assistência internacional no financiamento
da educação para alargar as oportunidades de aprendizagem
a um número cada vez maior de moçambicanos e assegurar
o desenvolvimento sustentável. Embora se reconheça
o acesso à educação escolar como um direito
fundamental, a boa vontade não é suficiente para a
sua concretização. A disponibilidade de recursos é
sempre um factor determinante na limitação do acesso.
No entanto, é preciso admitir a existência aspectos
estruturais e programáticos que não dependem de parcerias
externas e cuja solução compete aos moçambicanos
e está perfeitamente ao seu alcance. A pirâmide afunilada
que caracteriza mesmo os dois estágios do primário
e entre estes e o secundário, aliados aos elevados índices
de repetência e desistência, ilustram alguns dos problemas
de ineficiência que limitam desnecessariamente a oferta e
contribuem para a exclusão. A necessidade de prover as crianças que entram no sistema
a possibilidade de completarem os dois níveis do primário,
o EP1 e EP2, é inquestionável. Trata-se dum imperativo
de desenvolvimento e dum direito inalienável que assiste
as crianças moçambicanas, equiparável ao direito
a uma certidão de nascimento ou bilhete de identidade. A grande discrepância entre a população de
alunos no EP1 e no EP2 é uma distorção que
carece, portanto, de uma solução urgente. Em 1999
existiam cerca de 2,1 milhões de alunos no EP1 e apenas 186.277
no EP2 o que constitui uma taxa de transição de um
nível para outro de menos de 10%. A necessidade de correcção
da discrepância ganha maior relevância se tivermos em
conta que as crianças que saem do sistema antes de consolidarem
os seus conhecimentos básicos podem facilmente regressar
ao analfabetismo, desperdiçando assim os recursos investidos
no seu breve contacto com a escola. A reforma curricular visando
a adequação do EP2 às condições
vigentes e à realidade do país é um passo importante
para a solução deste problema, que afecta fundamentalmente
as crianças das famílias camponesas. Por outro lado, a educação das crianças com
base na premissa de que irão progredir nos níveis
imediatos, principalmente no que concerne à transição
do EP2 para o ESG e entre este e o nível superior, revelou-se
não só impraticável e utópica em muitas
circunstâncias, mas também ineficiente e onerosa para
um país com recursos escassos como Moçambique. O desafio aqui é desenhar conteúdos curriculares
que permitam a todos os que têm acesso à educação
em Moçambique tirarem o maior proveito possível do
contacto com a escola, dotando-lhes o instrumental que lhes alargue
o seu horizonte de escolhas como indivíduos autónomos
e melhore as suas vidas e das comunidades donde são oriundos.
Esta asserção é válida para todos os
níveis do ensino. Uma vez que o EP1 e EP2 comportam 96% da população estudantil é evidente que é nestes níveis onde se situa a primeira linha de esforços de interveção para tornar a educação relevante para a autonomização das novas gerações e para o proveito das comunidades donde elas são originárias. Como é que isso se realiza? Conforme foi argumentado, não existem fórmulas acabadas. Os quadros do sector, o Governo, a sociedade, os parceiros internacionais poderão, através de um processo de reflexão colectiva, ir encontrando as respostas criativas e adequadas ao desafio que se lhes apresenta. Mas uma coisa é certa. Os conteúdos dos programas de ensino actualmente em processo de reforma terão necessariamente que equacionar e acomodar a realidade ou realidades aqui descritas. |
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