Mozambique
As razões do alarme Capítulo 4 Casa

Um fardo insustentável

Uma das particularidades da epidemia do HIV/SIDA é que não só rouba o país de parte considerável dos indivíduos mais produtivos, como deixa fardos pesados para a sociedade. Um desses fardos pesados é o aumento brusco na população de órfãos. Em Moçambique existiam no ano 2000 cerca de 500.000 crianças órfãs das quais 2/3 são de pais vitimados pelo SIDA. Isto quer dizer que, num cenário sem SIDA, a população de órfãos seria de apenas 162,000 crianças.

As projecções do INE e MISAU (2000) sugerem que o pior está para vir. Até 2010 haverá aproximadamente 1,4 milhões de órfãos, dos quais 80% serão de pais vitimados pelo SIDA. Por outras palavras, de um número normal estimado em 280.000 órfãos num cenário sem SIDA, o País terá que arcar com as necessidades especiais e adicionais de 1,1 milhão de órfãos do SIDA, ou seja quatro vezes mais.

Quadro 4. 3: Número de órfãos por região, 2000–2010
Ano Sul Centro Norte Nacional
  SIDA Outras Causas SIDA Outras Causas SIDA Outras Causas SIDA Outras Causas
2000 33,034 37,022 229,794 66,855 78,603 58,532 341,431 162,408
2001 47,197 36,934 282,180 71,824 104,298 60,121 433,675 168,878
2002 63,707 36,956 333,417 76,732 131,339 68,048 528,463 181,736
2003 82,153 37,353 382,665 83,314 158,781 75,124 623,599 195,791
2004 101,916 37,935 429,153 89,628 185,774 81,503 716,843 209,066
2005 122,062 38,422 470,402 99,941 210,827 86,640 803,291 225,003
2006 141,944 38,991 506,947 109,267 233,683 91,281 882,574 239,539
2007 161,086 39,445 539,447 116,784 254,421 95,042 954,954 251,271
2008 179,146 41,564 568,003 132,543 272,963 105,292 1,020,112 279,400
2009 196,006 41,988 593,870 139,552 289,819 109,057 1,079,695 290,598
2010 211,580 41,479 617,403 141,250 305,186 109,368 1,134,169 292,097
Fonte: INE/MISAU, 2000.

O país dificilmente poderá mobilizar internamente os recursos necessário para fazer face a esta nova emergência, particularmente se se tiver em conta que 69% da população, ou seja cerca de 11,7 milhões de moçambicanos, sobrevive com um consumo inferior a 5,473.00 Meticais (US$ 0.40 em 1997) por dia, sendo por isso classificados como vivendo na pobreza absoluta.

A gravidade da situação está a mobilizar as forças sociais, notando-se já um movimento virado para divulgação de mensagens educativas sobre os perigos e forma de prevenção da epidemia, congregando desde políticos ao mais alto nível e de todas as sensibilidades até aos dirigentes espirituais e religiosos, numa autêntica cruzada contra o que alguns sectores chamam já de batalha pela vida. O presidente Joaquim Chissano descreveu nos seguintes termos a situação da epidemia na sua informação sobre o Estado da Nação do ano 2000: "A morte trazida pelo HIV/SIDA caminha a largos passos…. A juventude, a seiva da nação, está profundamente atingida. Da verificação feita em alguns estabelecimentos escolares, sabemos que mais de 20% do nosso futuro está condenado." (Chissano, 2000:4)

A grande incógnita reside em avaliar até que ponto as mensagens terão um impacto nos grupos alvos. É nelas que reside a esperança pois a experiência de outros países mostra que apesar do seu rápido alastramento na África Austral, o HIV não se propaga facilmente. A abstinência, o uso correcto e consistente de preservativos durante as relações sexuais com parceiros ocasionais e de 'alto risco', - principal conteúdo das mensagens de prevenção - aliado ao rápido tratamento de outras doenças de transmissão sexual (DTSs) e abstinência durante o tratamento delas podem conter a propagação do vírus.


| SARDC | Eduardo Mondlane University | UNDP |
© UNDP 2000