Mozambique
Inadequação da educação superior: Uma proposta de solução- Caixa 3.7 Capítulo 3 Casa

Constatação do problema

A relativa inadequação entre a formação dispensada nas nossas instituições de ensino superior e as necessidades do desenvolvimento sócio-económico do país parece ser objecto de consenso em Moçambique. Muitos dos recém-graduados das nossas universidades não possuem as capacidades e competências necessárias para fazer face aos desafios da realidade prática da vida das empresas e outras instituições públicas.

Embora se trate de um problema complexo e multifacetado cujas causas carecem de maior aprofundamento, não resta qualquer dúvida que, para ele, contribui a fraca preparação pedagógica dos docentes universitários, que resulta da utilização generalizada de metodologias antiquadas, ineficazes e obsoletas, muitas delas, para o cúmulo, mal utilizadas. Este problema inquieta governantes, a sociedade civil e a liderança das próprias universidades que têm vindo a procurar soluções, umas do tipo pontual outras de carácter mais estrutural.

Até ao presente momento existe um sentimento vago dessa inadequação traduzido pela percepção dos executivos das empresas de que "os recém-graduados são bons no plano teórico, mas fracos na prática". Muitos dirigentes de empresas e de diversos sectores do Aparelho de Estado têm apresentado casos concretos na base dos quais tem sido emitidos estes juízos de valor.

Na verdade, pouco de concreto tem sido posto em evidência sobre as áreas e faculdades onde o problema se reveste de maior gravidade. Um estudo recente demonstra que o problema se põe com maior acuidade na área da Justiça e do Direito onde, para além dos problemas inerentes à inadequação da formação, existem também problemas de corrupção e de inadequação da própria legislação. Muitas das críticas da sociedade civil e dos empresários resultam das suas observações directas nas empresas, mas isto cobre uma vasta gama de sub-áreas e faculdades desde a de engenharia engenharia e ciências, à de economia e gestão.

Um factor que, com certeza, joga um papel de máxima importância é a falta de formação pedagógica dos docentes universitários. Ela têm consequências múltiplas em vários aspectos do processo pedagógico, todas contribuindo para a inadequação e fraca qualidade da formação dispensada, nomeadamente:

  • No desenho curricular que ainda é sobretudo baseado na tradição em muitos aspectos estranha ao nosso país e não na análise científica das necessidades de formação, que não é efectuada, fundamentalmente porque a maioria dos docentes não sabe fazê-la;
  • No desenvolvimento incorrecto do curriculum e do programa das disciplinas, pois a maioria dos docentes não domina coisas elementares como o estabelecimento de objectivos educacionais, definidos como a modificação prevista do comportamento do estudante durante o processo de formação e que é traduzida por aquilo que o graduado será capaz de realizar e de evidenciar, de forma mensurável, no domínio cognitivo (saber), nos domínios comportamental (atitudes) e do saber fazer (habilidades técnicas);
  • Na capacidade ( ou melhor incapacidade) de assegurar o equilíbrio entre os três domínios essenciais de aprendizagem: cognitivo (conhecimento ou saber) sensório-motor (habilidades técnicas ou saber fazer) e emotivo ou comportamental (atitudes ou saber ser/saber estar), entre outras razões pelo total desconhecimento das técnicas pedagógicas mais adequadas para a facilitação da aprendizagem nestes diferentes domínios;
  • Na utilização quase exclusiva do método clássico de ensino, algumas vezes nas suas formas mais retrógradas, sem qualquer capacidade de modernizá-lo e, por vezes, também com um nível de desempenho didáctico muito baixo;
  • Na capacidade (ou melhor na incapacidade) de utilização de técnicas correctas de avaliação. O resultado é a adopção de instrumentos de avaliação de muito má qualidade, extremamente pouco fiáveis, de pertinência e objectividade duvidosas, em geral com fraco poder discriminatório, tendo tudo isto como consequência injustiças graves em todo o processo de avaliação de estudantes. Aliás uma boa parte do tempo dos dirigentes universitários é consumida a resolver conflitos daqui resultantes;
  • Na falta de disponibilidade dos docentes para aceitarem ser avaliados, por métodos vários, incluindo a sua avaliação pelos estudantes, adicionando-se a isto a incapacidade de construírem os adequados e correctos instrumentos para a sua própria avaliação.

    Uma proposta de solução

    Organização do curso:

  • Propõe-se que se multipliquem as iniciativas de formação de docentes universitários, dando prioridade aos docentes à partida motivados para a inovação pedagógica e metodológica, sobretudo aos regentes de cadeiras mais jovens, mas não restringindo só a estes, a formação a dispensar;
  • Estas iniciativas destes cursos não levantariam qualquer problema técnico nem exigiriam a importação de tecnologia, pois que dois volumes da obra "Metodologia de Aprendizagem por Solução de Problemas" produzidos pelo autor desta contribuição, consubstanciam já um curso desta natureza;
  • Deveria ser analisada a melhor modalidade para a sua realização, pois poder-se-ia prever a sua realização em várias modalidades:
  • Em regime contínuo e em horário pós-laboral;
  • Num esquema de cinco tarefas por semana, uma semana por mês durante oito a nove meses;
  • Em quatro módulos compactos, intensivo, de quatro semanas (35 horas por semana);
  • Em um único bloco compacto, intensivo de quatro semanas (35 horas por semana).
  • As duas instituições mais vocacionadas para esta tarefa seriam a Faculdade de Ciências Pedagógicas da Universidade Pedagógica e a nova Faculdade de Educação da UEM. Contudo, nada impediria que qualquer outra faculdade decidisse tomar esse encargo.

    Aplicação da metodologia

    Para este efeito haveria que suscitar a colaboração de algumas faculdades das diversas universidades na identificação de algumas disciplinas que por serem directamente ligadas à prática profissional dos graduados são facilmente problematizáveis. Entre essas disciplinas haveria que motivar os respectivos regentes para se disporem a participar nesta inovação pedagógica. Essas cadeiras teriam os seus programas restruturados para a elas ser aplicada a nova metodologia.

  • A aplicação prática da " Metodologia de Aprendizagem por Solução de Problemas" a essas cadeiras só se faria efectivamente no ano lectivo seguinte ao da formação dos respectivos docentes. O primeiro ano seria dedicado à criação de todas as condições para a implementação da disciplina em novos moldes. Isto significa, não só efectuar a reestruturação do programa em novos moldes, mas igualmente a produção atempada dos respectivos materiais didácticos, nomeadamente: Problemas Desencadeadores, Guias de Trabalho e Guiões do Facilitador, bem como os instrumentos de avaliação.
  • A produção dos materiais didácticos adaptados à metodologia poder-se-ia fazer em conjunção com a formação dos respectivos docentes, como parte dum " Trabalho de Curso" no processo da sua formação;

    Estímulo a iniciativas que visem melhorar as técnicas pedagógicas e didácticas utilizadas:

  • A formação de docentes universitários na "Metodologia de Aprendizagem por Solução de Problemas" não seria restringida unicamente aos regentes de cadeiras problematizáveis que se tivessem voluntarizado para a introdução desta metodologia na sua cadeira. Ela seria extensiva a um maior número de docentes, incluindo os não regentes de cadeira e a docentes de disciplinas não problematizáveis, com vista a conscielizá-los dos inconvenientes do método clássico de ensino e da necessidade de insistirem sobre a aprendizagem não só de conhecimentos, mas também de habilidades técnicas e atitudes;
  • Por outro lado, eles ficariam também capacitados para definirem objectivos educacionais assim como para uma série de técnicas pedagógicas participativas baseadas na dinâmica de grupo, úteis para a facilitação da aprendizagem de habilidades técnicas e atitudes, que poderiam introduzir nos seus programas convencionais, modernizando assim o método clássico de ensino;
  • A metodologia envolveria ainda a promoção do princípio duma avaliação dos estudantes, dos programas das metodologias e dos próprios docentes, incluindo a sua avaliação pelos estudantes.

    Resultados esperados

    Se as acções aqui propostas fossem implementadas correctamente,
    se um número razoável de docentes (pelo menos 60 no primeiro
    ano) fosse formado, e se um número substancial de faculdades
    aderisse a este processo inovador e se em cada uma dessas
    faculdades fosse possível implementar a nova metodologia em uma
    ou duas disciplinas, poder-se-iam esperar os seguintes resultados:

  • Melhoria significativa das competências pedagógicas dos
    docentes, com consequente melhoria do seu desempenho;
  • Melhoria significativa do desempenho dos graduados na vida
    prática. Essa melhoria resultaria, não só de uma melhor capacitação na
    área do conhecimento, mas sobretudo dum desempenho melhorado
    das actividades práticas, nos comportamentos e nas atitudes;
  • Diminuição das taxas de reprovação sem diminuição do nível
    de exigência e, mesmo, um eventual aumento de nível de exigência;
  • Melhoria da qualidade do processo de avaliação de
    estudantes, que assumiria um carácter de maior rigor científico e
    maior objectividade;
  • Criação de uma capacidade de identificação dos erros de
    implementação, dos nós de estrangulamento e das insuficiências de
    desempenho dos docentes, com a tomada atempada de mediadas
    correctivas, evitando que os problemas se tornassem conflituosos.

    A implementação das acções propostas necessitaria de recursos
    mas em relação aos resultados esperados o investimento necessário
    seria extremamente modesto, resultado numa relação custo/
    benefício altamente rentável. Os recursos seriam sobretudo no
    domínio da assistência técnica.
    Dr Hélder Martins


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