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Outros constrangimentos programáticos O SNE é introduzido num contexto social e político
conturbado, marcado pela grave crise económica e pela destruição
de infra-estruturas sociais e económicas e desintegração
causadas pela guerra. Por outro lado, é pertinente reconhecer que a capacidade
limitada de direcção e controle efectivo do sistema,
juntamente com a fraca organização institucional dos
estabelecimentos escolares, foram condicionantes importantes para
o logro de muitas das inovações que se pretendiam
introduzir com a reforma. Era, ainda, muito incipiente a experiência
e conhecimento sobre a realidade sociocultural em que se inseriam
os programas da educação assim como a capacidade de
planificação, de direcção e de gestão
do próprio sistema educativo e das escolas. Contrariamente ao proposto, não se conseguiu, por exemplo,
generalizar o segundo grau do ensino primário, que devia
completar o ciclo das sete classes de ensino primário. O
grande factor por detrás deste insucesso é a forma
como a estrutura curricular deste nível de ensino foi concebida.
A estrutura exigia vários professores por turma, o que inviabilizava,
à partida, a sua implantação e implementação,
principalmente, nas zonas rurais. Não obstante a sua integração no ensino primário,
o currículo do EP2 foi concebido mais como o primeiro nível
do ensino secundário do que como o último nível
do primário, quando na verdade deveria corresponder à
combinação de ambos, mas com maior ênfase no
primário. Além disso, o currículo da educação
ensino primário não tomava em consideração
as lógicas e práticas culturais das diferentes comunidades
e ainda enfatizava o transplante dos valores e visões próprios
das zonas urbanas. O insuficiente envolvimento dos professores na reforma curricular,
por outro lado, provocaria a resistência destes em relação
à introdução de novas metodologias de ensino,
particularmente, nas disciplinas de língua portuguesa e de
matemática. Muito cedo se verificou que a introdução
da metodologia de ensino da língua portuguesa como segunda
língua não resolvia o problema da sua aprendizagem
principalmente pelas crianças oriundas de famílias
camponesas. Não ficava, assim, resolvido o problema da educação
ser um factor de reprodução da desigualdade social. Os resultados na alfabetização dos adultos nas zonas
rurais, por outro lado, foram sendo cada vez mais desalentadores,
provando que a opção pela língua portuguesa
como veículo de ensino não era a mais adequada. Mas,
mais do que isso, os seus programas não eram relevantes para
as necessidades específicas das diferentes comunidades, desmotivando
os adultos de permanecerem no processo de aprendizagem. A formação de professores, declarada estratégica
e fundamental para a implementação da reforma educativa,
estava também em desencontro com os conteúdos, metodologias
e estratégias de aprendizagem preconizados pelo currículo
da educação básica. Tendo em conta todas estas limitações, pode-se compreender
que uma das principais razões que fundamentaram a necessidade
da reforma educativa de 1983 - a pouca eficácia do sistema
manifestada nas altas taxas de reprovação e repetência
se tenha mantido, em grande parte, inalterada, apesar da introdução
de novos programas e metodologias de ensino e os alunos disporem
de livros escolares. Avaliando as limitações do impacto da reforma educativa
de 1983 é de reconhecer a pertinência das posições
e argumentações críticas que desaconselhavam
na altura a introdução de um novo sistema educativo.
Estas posições baseavam-se em constatações
no terreno que indicavam não estarem reunidas as condições
organizacionais e institucionais apropriadas que garantissem o sucesso
da reforma educacional. Neste, como em outros domínios, a
vontade política sobrepôs-se à racionalidade
técnica. |
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