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As transformações no sector da educação
revestiram-se também de aspectos qualitativos. O projecto
educativo do Moçambique independente pretendia não
só alargar o acesso mas também expandir a experiência
educacional da luta de libertação nacional. A escola
para todos devia contribuir para o resgate da dignidade do povo
moçambicano, valorizando a sua cultura e a sua história
e ser um espaço social privilegiado para a formação
da nação, cultivando a identidade e unidade nacionais.
As alterações operadas no sistema educativo permitiram
que crianças, jovens e adultos moçambicanos pudessem
estudar a geografia e história do seu país e não
mais a geografia e a história da metrópole colonial.
Nesse sentido, a educação desempenhou, nessa fase,
um papel importante na criação e desenvolvimento da
consciência nacional. Como espaço de promoção do conhecimento, a
escola, em todos os seus níveis e ramos, tinha a responsabilidade
_de assegurar o acesso ao saber técnico-científico
acumulado pela humanidade, como instrumento fundamental e decisivo
no combate à miséria, condição sine
qua non para a promoção do desenvolvimento. Novas formas de gestão que implicavam o envolvimento e participação
de alunos, professores e da comunidade na vida da escola foram introduzidas.
Pretendia-se que a escola fosse um centro de aprendizagem democrática,
onde todos eram chamados a debater e participar na resolução
dos problemas. Estes objectivos e propósitos entravam, com
frequência, em choque _com práticas pedagógicas
e de gestão _escolar autoritárias. Por todo o país surgiram iniciativas e experiências
de interacção entre as escolas e comunidades que,
muitas vezes, não tiveram continuidade para a sua consolidação.
Por vezes, essa relação limitava-se ao trabalho que
as comunidades realizavam na construção e limpeza
dos estabelecimentos escolares. Mas poucas foram as escolas que
fizeram da relação com as suas respectivas comunidades
momentos de mútua aprendizagem. Importa salientar, porém, que este esforço de massificação
educacional teve os seus sobressaltos. A nacionalização
do ensino criou condições para eliminar os factores
de discriminação social e racial e ampliar o acesso,
por um lado. Mas por outro, induziu um processo estatizante na gestão
do sistema educativo, que, com o passar do tempo, provocou o esfriamento
do ímpeto de participação popular que havia
marcado os primeiros anos da independência. A questão que pode ser colocada é: se o objectivo
de todo este esforço era alargar _o acesso e estabelecer
a ponte entre a modernidade e a tradição, o que é
que explica, então, este retraimento? Existem várias
razões. A adopção do ideário político e científico
da modernidade acabaria tornando, na prática, a relação
entre educação moderna e a educação
tradicio-nal complicada e difícil. Ao longo da história
da educação pós-independência dificilmente
se encontram exemplos de interacção e diálogo
em pé de igualdade, no espaço escolar, entre as lógicas
da modernidade e as da tradição. Entre educadores e dirigentes moçambicanos colocou-se sempre
a necessidade de inserir a escola, social e culturalmente, na comunidade.
No entanto, 25 anos após a independência, as escolas
moçambicanas em geral, continuam desenraizadas das comunidades
onde fisicamente se situam. As escolas são ainda percebidas
pelas populações, principalmente camponesas, como
algo estranho, na medida em que veiculam visões do mundo
e valores muito diferentes à sua racionalidade _(Khôi,
1990:328) e pouco contribuem na transformação das
suas vidas. Não é estranho, então, que apesar de muitos
esforços e algumas experiências esparsas, a escola
permaneça uma instância alheia e, em muitos casos,
estrangeira para as comunidades. Se a escola é formalmente
aceite por estas, isso deve-se ao facto da escolarização
ser condição e pré-requisito para uma hipotética
mobilidade e estatuto sociais, que acaba por educar as novas gerações
para fora da cultura e da comunidade em termos de atitudes, práticas
e valores em vez de fazer o inverso. O projecto de escola/educação inseria-se, como já
referimos, no ideário da modernidade, que atribui à
ciência e à técnica a missão de libertar
o Casam e as sociedades das trevas do obscurantismo. Esta opção,
porém, tal como foi e é interpretada, acabaria dando
sustentação a práticas marginalizadoras em
relação à cultura da maioria das comunidades
moçambicanas que a escola deveria servir, acentuando assim
o fosso que separa os sectores "moderno" e "tradicional"
da sociedade. Por outro lado, os objectivos da educação e os métodos
de trabalho nas escolas tinham como fundamento as experiências
educacionais desenvolvidas durante a luta de libertação.
Um dos seus objectivos fundamentais era criar nos alunos o amor
pelo seu país e desenvolver a sua consciência política,
isto é, sentido de responsabilidade em relação
ao bem comum. (Buendía, 1997:352). Esses propósitos nobres assentavam, contudo, na frágil premissa de que a experiência educacional das zonas libertadas, muito localizada e condicionada pela dinâmica da guerra de libertação, poderia ser transferida para todo o país por _decreto. Essa presunção teórico-prática _resultava, em grande parte, de uma _atitude voluntarista, muito generalizada _na época, e inspirava-se na natureza _radical das transformações sociais _em curso. |
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