Mozambique
O percurso da educação nas escolhas dos moçambicanos Capítulo 3 Casa

A perspectiva nacionalista da educação e os desafios da independência

Ao longo da década de 1960, regista-se um relativo aumento dos efectivos escolares, particularmente, no ensino primário e técnico, nas zonas suburbanas e rurais onde se fazia sentir a influência nacionalista. Esta mudança na política educativa pode ser interpretada como uma tentativa do regime se legitimar frente à população africana e do mundo e, desta forma, travar o avanço do movimento de libertação nacional. Outro objectivo importante era atender às necessidades formativas que o tímido projecto de modernização da economia, iniciado nessa década, reclamava. (Buendía, 1999)

O movimento de libertação nacional (1962-1974) coloca a educação como uma das condições fundamentais para a construção e desenvolvimento da nação moçambicana. Juntamente com o modelo político de Estado-Nação, o movimento de libertação adopta a escola "moderna". Este projecto educativo assenta, fundamentalmente, na racionalidade científica da modernidade que se apresenta como o único conhecimento válido, desqualificando todos os outros saberes.

A perspectiva educacional que a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) desenvolve durante a guerra de libertação procura distanciar-se da concepção educativa da escola colonial em termos de objectivos, métodos e práticas.

A crítica da FRELIMO ao sistema de educação colonial destaca a sua irrelevância e inadequação para as necessi-dades dos moçambicanos "não só porque abrangia poucos africanos, mas também porque a instrução dada a esses poucos era totalmente alheia às necessidades de Moçambique" (Mondlane, 1975:196). A crítica sublinhava o carácter alienatório dos programas de ensino, porque promoviam o distanciamento dos alunos em relação à sua origem e realidade socioculturais, induzindo-os a desprezarem os valores africanos e a adoptarem os valores do colonizador.

No entanto, a crítica reconhecia o mérito da escola colonial em ofere-cer ao colonizado o instrumental necessário para sa-ber agir numa situação muito dife-rente à da sociedade "tradicional", dotando-lhe dos códigos para compreender melhor o meio que o rodeia e a dinâmica so-cial.

O reconhecimento da pertinência da educação "indígena" é, contudo, mediatizado pelo ideário da modernidade assumido pelo movimento de libertação. Se, por um lado, a perspectiva nacionalista reconhece a pertinência e vigência dos objectivos e valores da educação tradicional, por outro lado, considera necessária a adopção da escola da 'modernidade' de forma a fazer face às exigências decorrentes da construção da nação e da inserção política e económica de Moçambique independente no concerto mundial das nações.


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