Mozambique
O percurso da educação nas escolhas dos moçambicanos Capítulo 3 Casa

O desencontro das lógicas e visões dos sistemas de educação

Ao longo da sua história, os moçambicanos conheceram dois períodos distintos em termos de objectivos, acesso e conteúdos da educação escolar: o período colonial, durante o qual a educação oficial foi fundamentalmente utilizado como veículo de dominação, o que acabaria por transformá-la num dos factores que contribuíram para a formação duma consciência nacionalista; e o período pós-independência que começa em 1975 e foi caracterizado pela aposta na massificação da educação para 'fazer da escola uma base para o povo tomar o poder', como rezava um slogan da época, citado na Contribuição Especial de Machilli que fecha este Capítulo.

Como quaisquer outras colectividades humanas, as comunidades africanas, ao longo da sua história, desenvolveram práticas e sistemas de educação que possibilitaram a transmissão dos saberes e valores, garantindo a sua reprodução e desenvolvimento.

Durante séculos, a maioria da população moçambicana foi educada com base num modelo que se caracterizava pela sua integração na totalidade da vida e pela sua estreita ligação com o ambiente natural e social. Esse tipo de educação foi eficaz na sua função de garantir a socialização das novas gerações através da transmissão dos valores, saberes e práticas acumulados ao longo da história das diferentes comunidades (Dias, 1990: 283).

Segundo Mondlane, a educação tradicional e pré-colonial, porque inserida na reprodução de vida e da cosmovisão africanas, atendia melhor às suas necessidades: "As grandes virtudes desta educação pré-colonial africana eram principalmente o ser orientada para as necessidades da sociedade, ser to-talmente integrada e destinar-se a todos por igual" ( Mondlane, 1975:196).

Infelizmente, os aspectos positivos deste manancial de conhecimento acumulado ao longo de séculos não foram, nem podiam ser, aproveitados, por razões inerentes à natureza do sistema colonial: primeiro, porque não era vocação do regime colonial preocupar-se com o desenvolvimento integral dos moçambicanos; e, segundo, porque a versão modernista da educação colonial foi concebida apenas como instrumento do alargamento das capacidades nos aspectos em que este consolidasse a

alienação cultural e servisse para perpetuar a dominação sobre os moçambicanos.
Nesse contexto, compreende-se que _o sistema colonial ignorasse, pura e simplesmente, a existência da educação 'nativa'. A legitimação da dominação requeria a negação da história, dos saberes, em suma, da cultura das sociedades africanas e a utilização das instituições de ensino como instrumentos de 'civilização' e 'nacionalização' dos indígenas (Hedges, 1999)

Na verdade, de todos os métodos destinados a privar os nativos de Moçambique do seu desenvolvimento humano, a educação é das que talvez melhor espelha a política deliberada de exclusão. O sistema de educação implantado no território transportava o estigma da dominação que se consubstanciava, não só no desprezo do conhecimento e valores da população nativa, como na limitação do acesso e no bloqueio da progressão dos poucos que conseguiam ingressar nele.

Não causa, portanto, surpresa que, quando da independência de Moçambique em 1975, cerca de 93% dos 10 milhões de habitantes do território não tivessem tido acesso à escola "moderna". Este facto é um dos indicadores que reflectem o baixo nível de "modernização" que o regime colonial conseguiu implantar no território, e o carácter "subdesenvolvido" do próprio colonialismo português, cujo desenvolvimento assente na exploração da mão-de-obra barata dispensava a generalização da escola nas colónias.


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