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A repetência e suas implicações Um dos graves problemas com que se debate o sistema educacional,
particularmente no ensino primário, é o nível
elevado de repetências. Curiosamente, a repetência manteve,
sensivelmente, o mesmo peso quantitativo em diferentes contextos
do ensino. Os gráficos 3.12 e 3.13 ilustram a evolução
da proporção de aprovações, desistências
e repetentes no ensino primário. Numa série temporal de 13 anos consecutivos, a proporção
de repetentes no EP1 representou, invariavelmente, cerca de 25%
da população que frequentou aquele nível de
ensino. O peso da repetência que se regista num quadro influenciado
pela instabilidade devido à guerra e aos efeitos do PRE mantém-se
após o fim da guerra e ainda, num período em que a
economia do país começa a dar sinais evidentes de
recuperação. Embora os índices de desperdício escolar sejam influenciados
por variáveis sócio-económicas que não
dependem da acção dos especialistas da educação,
a decisão se o aluno repete ou passa de classe é da
responsabilidade dos professores. Por conseguinte, as taxas de repetência
têm uma relação intrínseca com as políticas
e práticas educativas. O novo currículo do ensino básico, desenhado no contexto
das reformas preconizadas pela nova visão estratégica
do governo, propõe uma escola primária completa de
sete classes mais articulada e integrada do ponto de vista do conteúdo;
propõe ainda, uma alteração profunda de uma
prática pedagógica centrada no professor para uma
aprendizagem mais activa e que tome como sujeito do processo o próprio
aluno. Para complementar estas medidas no âmbito do novo currículo,
propõe-se uma aprendizagem organizada em ciclos acompanhada
de novas práticas pedagógicas e de avaliação
dos alunos. A língua de ensino é, certamente, outro problema
que a escola primária moçambicana terá de resolver
para melhorar a sua eficiência. Este aspecto é abordado
na Contribuição Especial 2 e na caixa 3.6. Como dizia
Joseph Poth, encarregado do projecto LINGUAPAX da UNESCO, "uma
educação que separa a criança do idioma falado
na sua família, constitui uma das principais causas da repetência
e abandono escolar". Os resultados da investigação
conduzida em Moçambique e noutros países, confirmam
que, de facto, a língua materna é a mais apropriada
para os primeiros anos da aprendizagem da criança. Começa a antever-se, no entanto, um cenário em que
a contínua expansão do sistema não dependerá
apenas da oferta, mas ter-se-á que accionar outros mecanismos
sociais e pedagógicos que estimulem a procura para minimizar
o sub-aproveitamento das unidades existentes. Mais do que continuar
a sustentar a expansão com recurso a investimentos na construção
de salas de aula, o sistema terá que melhorar significativamente
a sua retenção e reduzir as repetências que
continuam a desperdiçar cerca 25% da capacidade do ensino
primário. Do ponto de vista organizativo, pode-se afirmar que o SNE acusa
uma distorção estrutural que atenta contra os ditames
da própria lei que preconiza a universalização
do ensino primário. Com efeito, como ilustra o gráfico 3.15, o sistema tem uma
base ampla a nível do EP1 mas, estrangula-se de forma abrupta
no EP2 que é o segundo nível do ensino primário.
Isto deve-se à forma organizativa do EP2 que estabelecendo
um funcionamento por disciplinas independentes, semelhante ao ensino
secundário, torna-o muito oneroso e de difícil expansão
pelo extenso território nacional, devido à quantidade
de professores que requer para o seu funcionamento pleno. Outro constrangimento importante no sistema é a disponibilidade irregular do livro escolar, um instrumento imprescindível no processo de ensino-aprendizagem com grande influência sobre a qualidade e eficiência. Uma das questões preocupantes é o atraso sistemático na sua distribuição. Os atrasos parecem derivar da ineficiência do sistema de distribuição e o facto de os livros serem impressos fora do país. Uma possível solução para o problema de atrasos crónicos seria a sua produção em Moçambique, pois não só facilitaria a calendarização da sua distribuição, como iria promover o crescimento do parque gráfico nacional. A distribuição é um problema meramente interno, mas a produção interna do livro requer negociações complexas com os parceiros internacionais que financiam a impressão do livro escolar. |
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