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A educação, nas suas diferentes vertentes, joga um
papel preponderante no desenvolvimento. O conceito de desenvolvimento
humano considera o nível educacional das pessoas como uma
das dimensões mensuráveis mais importantes que exprimem
o nível de desenvolvimento de uma sociedade. Como foi referido no Capítulo 1, as pessoas instruídas
estão mais aptas a inovar e a adoptar métodos que
permitem uma vida condigna, decente e criativa, assim como criam
as condições para uma vida longa, em condições
em que, como se diz na linguagem popular, "valha a pena viver".
Buendía e Juvane chamam-nos ainda a atenção,
na Contribuição Especial que abre este Capítulo,
para o facto elementar de que as pessoas instruídas estão
dotadas dos instrumentos necessários para lutarem contra
a exclusão social, podem influenciar positivamente as decisões
que afectam as suas vidas e estão aptas para receber e partilhar
informação, contribuindo para o enriquecimento do
conhecimento e do património cultural da humanidade. O sistema de educação escolar permite a disseminação
social do conhecimento de forma eficaz, eficiente e consensual.
Para além da transmissão de conhecimentos científicos
que permitem aos indivíduos 'queimarem etapas' no processo
de aprendizagem, a educação desempenha também
uma função importante na sua socialização.
A escola deve, em princípio, inspirar-se na educação
familiar e nas comunidades para, além das aptidões,
inculcar, nas novas gerações, valores socialmente
importantes e moldar atitudes como a autodisciplina, orgulho próprio
no trabalho, flexibilidade, espírito de abertura e disposição
para cooperar (PNUD, 1996:51). O reconhecimento da importância da educação
escolar no desenvolvimento culminou com o seu resgate para o domínio
dos direitos fundamentais da humanidade, consagrados na Declaração
Universal dos Direitos Humanos. O Artigo 26 deste convénio
internacional de princípios defende o direito à educação
sem discriminação, assim como estabelece a obrigatoriedade
do ensino básico gratuito extensivo a todos os cidadãos
de um determinado país. A definição do que
constitui o 'ensino básico' fica ao critério de cada
país de acordo com as suas capacidades, recursos e prioridades5.
No caso de Moçambique, a educação básica,
que se pretende gradualmente universalizar e tornar obrigatória,
abrange as sete classes que constituem o ensino primário.
O conceito de desenvolvimento humano, na sua essência, prossegue
este ideal dando relevo à educação no desenvolvimento
dos indivíduos e das nações, e chamando a atenção
para a observância daquele direito através dos seus
variados instrumentos de medição, através dos
índices analisados nos Capítulos 1 e 2. Importa salientar que a abordagem da educação no
contexto do desenvolvimento humano difere substancialmente da perspectiva
economicista de recursos humanos, pois que esta trata a educação
com ênfase na sua vertente de formação de 'capital
humano'. A função da educação, na abordagem
de recursos humanos, é apenas a de desenvolver aptidões
nas pessoas, para torná-las mais produtivas e inovadoras
e como investimento que é, o mérito de educar ou não
uma população não deriva dos ditames sociais,
mas sim do seu equacionamento com aquilo que se convencionou ser
a taxa de retorno social ou privada. O conceito de desenvolvimento humano, por outro lado, adopta a
premissa de que a educação é uma das dimensões
fundamentais de desenvolvimento, pois constitui uma escolha incontornável
das pessoas, independentemente das posses ou estatuto social. A
aprendizagem é, por isso, considerada como tendo um valor
de desenvolvimento intrínseco porque permite expandir as
capacidades das pessoas para fazerem escolhas informadas sobre as
suas vidas, independentemente destas capacidades serem ou não
aplicadas no aumento da produção ou na inovação.
A educação escolar na abordagem do desenvolvimento
humano só tem valor quando contribui de forma genuína
para expandir o bem-estar geral das pessoas no seu sentido mais
amplo. Assim, a educação transforma-se num fim em
si mesmo. A falta do seu provimento é uma privação
que deve induzir a uma análise de causalidade e levar, sempre
que possível, a uma acção correctiva por parte
dos governos e da sociedade em geral. (PNUD, 1996:54-55) A educação escolar é um instrumento privilegiado
e indispensável no combate à exclusão e discriminação
social: como exemplifica o RGDH 1996, a educação pode
ser um veículo através do qual se garante a distribuição
equitativa dos recursos. Por exemplo, quando através do aumento
do número de pessoas formadas se limita a possibilidade dos
quadros formados utilizarem os seus conhecimentos para exigirem
mais privilégios, reduz-se simultaneamente o fosso nos rendimentos,
contribuindo para a estabilidade social.(PNUD, 1996) Outro exemplo reside na escolarização das raparigas
e mulheres, um processo que emancipa as beneficiárias, ao
mesmo tempo que abre espaços e oportunidades para a sua participação
económica e social, condição fundamental para
a redução dos índices de privação
que incidem sobre essa camada social, que é a maioria da
população. O presente capítulo analisa a trajectória da educação
enquanto componente importante do alargamento das escolhas dos moçambicanos.
O capítulo inicia com uma breve incursão pelo percurso
da educação em Moçambique no tempo colonial
e, seguidamente, discute em pormenor as diferentes etapas do esforço
para prover os moçambicanos de um direito que lhes fora negado
durante a dominação colonial. O Capítulo identifica e analisa aquilo que, na perspectiva
dos autores, são os principais nós de estrangulamento
do sistema de educação em Moçambique e os principais
desafios que se colocam ao sector, tendo em conta a dinâmica
interna, mas também a realidade dum mundo em transformações
contínuas e rápidas. Os desafios são múltiplos e dizem respeito ao alargamento do acesso à educação, à reforma dos seus conteúdos, os constrangimentos programáticos, sociais e económicos, a redução da dependência externa e o esforço para tornar a escola num instrumento relevante ao processo de desenvolvimento no seu sentido mais amplo. 5 A declaração da Conferência Internacional
sobre Educação para Todos de Jomtien, em 1990, fornece
um subsídio importante para esta definição.
A conferência definiu a educação básica
como o provimento de ferramentas essenciais como a leitura, a escrita,
a expressão oral, o cálculo, a solução
de problemas assim como conhecimentos técnicos práticos,
o desenvolvimento de capacidades para viver e trabalhar com dignidade,
participar plenamente no desenvolvimento, melhorar a sua qualidade
de vida, tomar decisões fundamentais e continuar a aprender
durante a vida.
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